segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fuga




Abres a boca e as consoantes saem ordenadas
epileticamente dançadas de encontro
às vogais que balbucio.
Prendo-as levemente nos lábios
e sopro-tas com movimentos de enlace
enredando-as em fateixas de abraços.
Solto os meus cabelos cor de lua
e escorrego devagar pelo teu corpo
meio medusa, meio sereia a naufragar-te
enquanto as mãos se enchem de um perfume bárbaro.
Tenho mágoas a cobrir-me o olhar
mas diluo-as na tua pele numa osmose de sombras.
Rasgo em mim uma rota através de antárticas noites
olhadas das vespertinas clarabóias dos meus olhos.
Os teus discursos têm anzóis e gavinhas
e nem o meu canto , nem o meu gemido
nem a minha febre ou o meu olhar
conseguem evitar o precipício.
Depois...silencia-se a boca e a fuga reclama-nos


Margarida Piloto Garcia


Quadro de Gottfried Helnwein
  


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