segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A pior coisa na vida





Não sei bem como medir o olhar que me deitaste, quando passaste por mim num matraquear de saltos na calçada. Nos poucos segundos em que te embaraçaste na multidão, ficaste presa em mim, como um pássaro aflito a bater asas. Foi um breve espaço no tempo, uma cena de cinema em câmara lenta.
Eu olhei-te como se pudesse ter levitado da enxerga às riscas, pejada das mantas da caridade pública, quase a tentar encarnar-te e seguir contigo. Reconheci-me no passo bailado a cantar esperanças, na roupa a cheirar a flores de laranjeira, no cabelo a esconder um olhar aceso.
Quis seguir contigo e agarrar-me aos poemas que os teus lábios deixavam adivinhar, enquanto te diluías nas sombras de tantos vultos. Tu pisaste as pedras rumo ao desconhecido e eu reconheci o percurso anteriormente feito pelo meu corpo.
Escondo-me nos cartões duma publicidade que já não me faz falta, olhando-te através das letras dos jornais, que me falam de um mundo que já não é o meu.
Acomodo-me rente à muralha a pensar como serás, o teu corpo esticado num sofá a tecer sonhos. Um sofá, algo extraordinário, uma peça onde se pode ler, dormir, amar e sonhar...sempre. Antes, eu nunca teria percebido como um objeto de 4 letras, poderia ser tão importante.
Tenho este canto onde ainda sonho quando consigo fugir à aspereza da pedra e à frialdade duma noite invernosa. Afinal, o sonho tem essa impecável imaterialidade de tudo o que nunca será.
Mas tu passas agarrada aos teus sonhos de sofá, do qual não sei a cor. Passas e lanças-me esse olhar que não é nem de nojo, nem de pena. É antes um arrepio que te vem da pele e te sobe aos olhos, deixando-os a refletir sombras e desvaires.
Da tua mala, quando roçaste a pedra, saiu uma lufada quente e reluzente, um aroma doce a sacudir-me a memória e a despertar uma confusão aguda no estômago faminto.
Mas apaziguo-a rápido, habituada que estou a cercear qualquer devaneio que o corpo solicite.
Não costumo reparar nos vultos que me enchem os dias de sons e odores. Mas hoje, tu passaste e foi como se fosses eu, num outro tempo, numa outra vida.
Apeteceu-me levantar deste fim de mim, correr atrás de ti e gritar-te:

- Cuidado, a pior coisa na tua vida será matares os sonhos.



Margarida Piloto Garcia

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