terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lembrança





Lembro-me sempre de ti.
Crescem-me ramos ao longo dos braços
e as minhas mãos são maçãs carnudas e aromáticas
a desfiar carícias de antigamente.
Abraço a tua lembrança
com os lábios acerejados onde as flores brotam
ao ritmo da respiração lenta e sincopada
para esquecer as arritmias do nosso cavalgar.
Cada dia passado na tua ausência
abre o rumo da fome dos sentidos
e deixa pegadas que o tempo não apaga.
Lembro-me sempre de ti
dos dias em que as sombras
eram apenas o nome dos nossos corpos acesos
e das noites em que morríamos nos gritos
a ecoarem no silêncio dos cheiros enlaçados.
Mas não deixo que a lembrança me desvende o olhar
e me roube a paixão de que sou feita.
De mim só eu sei.
O resto são artifícios, rendas que os outros tecem.


Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Amor




Amo-te na língua de Camões
naquela que nos fez correr mundo e ser aventureiros.
Amo-te em francês
em inglês, em farsi ou urdu.
Amo-te no árabe das noites de deserto
debaixo de um céu a rebentar-nos estrelas nos olhos.
Ich liebe dich de encontro aos tijolos do que resta do Muro de Berlim
e je t’aime nas ruas de Montparnasse na primavera parisiense.
Amo-te em mandarim, em japonês e em checo.
Juntamos os rios e desaguamos numa foz de paz e ternura
após termos galgado vivos e apaixonados as cataratas do Niagara.
Não importa se somos Amazonas, Tejo ou Mississipi
apenas os dedos sabem o percurso do rio.
Te quiero nas ruas de Buenos Aires, num tango lascivo a escorrer
leite e mel e a deixar na boca o sabor da pele em chamas.
Beijo-te em mil línguas numa Babel aleggro ma non troppo
a deixar embeber o meu ritmo no teu.
O beijo soa em coreano sem ponto cardeal a separá-lo
em dinamarquês ou hebraico, apenas beijo com a única língua
que conheço e domino. E essa é minha mas pode também
ser tua, num encontro onde o mundo derruba as barreiras.
Numa esplanada aqui ou nos antípodas
numa praia onde só a areia sabe desenhar-nos os corpos
simplesmente amo-te  na linguagem universal do amor.



Margarida Piloto Garcia


domingo, 8 de setembro de 2013

Depois de ti




Depois de ti não há mais palavras.
O tempo é ladrão que tudo rouba
sem que em troca nos dê o deus do esquecimento.
Depois de ti não ficaram terras por cultivar
onde eu pudesse ao amanhecer
vir espreitar as papoilas rubras.
Não ficaram mais mistérios por desvendar
porque já me tinhas navegado até ao último horizonte.
Depois de ti a noite já não tem pecados
nem sonhos, nem estrelas a chamarem por mim.
Não conheço mais fogos esventrando as madrugadas
nem as sinfonias me acordam de noite
desejosas que se escreva um novo andamento.
Depois de ti nada em mim é sobressalto.
Nem as sombras da pele
nem as comissuras dos lábios
nem o reflexo dos olhos.
Nada se atreve a existir.
Alimento-me das memórias
e minto-te e minto-me porque o pensamento é matreiro
e cerca de ciladas o coração.
Nada sei do fingimento do poeta
apenas do que restou depois de ti.

Margarida Piloto Garcia