domingo, 28 de julho de 2013

Flor de laranjeira




Virou a esquina e o perfume atingiu-a como um soco violento. Parou aturdida, a mão comprimindo o estômago, a respiração ofegante, o coração tornado corcel em fuga insana. O aroma era inebriante, quase sufocante de tão pungente e intenso.
Respirou fundo, muito fundo, as narinas tremendo,  na vã tentativa de que a fragância se diluísse nas veias sem a entorpecer demasiado.
Andou um pouco, cambaleante com a intensidade da resposta que o corpo lhe transmitia.
A rua era inclinada com meia dúzia de bancos a culminar a subida. Sentou-se e voltou a aspirar o ar limpo da madrugada azul. Uma brisa odorífera, chicoteou-a levemente numa carícia perversa e proibida e uma flor caiu da árvore e escorregou-lhe levemente por um fio de cabelo, fez um percurso em espiral e aterrou-lhe nos lábios.
Voltou a sentir o formigueiro intenso nas narinas e a resposta febril que o aroma desencadeava em si.
As flores nas árvores executavam um mágico e sensual bailado, agitando-se, lançando-se em voo feérico, dispersando-se, tombando e voltando a remoínhar rua abaixo.
Estremeceu inquieta, assustada pelas sensações transmitidas pelas flores da laranjeira. Encostou-se no banco, a saborear em pequenos travos os raios de sol perfumados.
Tantas lembranças a marcarem-lhe o corpo como cicatrizes mal curadas!
Tinha dias em que jogava um jogo: o do esquecimento. Nesses dias, o jogo era misericordioso com ela. Marcava-lhe a mente com um torpor sólido e palpável, uma espécie de cadeado que impedia as memórias de se escapulirem do local onde as guardava.
Era assim que se sentia quando nessa manhã caminhava aérea e quase intangível, antes de ter virado a esquina.
Depois ...tudo se transfigurara. O perfume intenso das flores tinha sido a chave que criara o dilúvio, a tempestade de emoções. De repente os muros ruíram e as lembranças jorraram em tropel, desnudando-a, violentando-a, derrubando-a sem qualquer pudor.
Fora num dia assim que o conhecera. Corria uma primavera quente e insidiosa, com a natureza a brotar por todo o lado num parto incessante e quase lúbrico. Sentia-se especial, com o amor próprio a cantar de prazer, à custa de um corpo flexível e de um novo penteado. Os recentes caracóis pareciam espirais de um desejo pagão a volutearem ao longo da face. Tinha uma leveza exaltada, nos movimentos quase lascivos de tango dançado e um apetite voraz de um não sei quê a queimar-lhe a pele.
Fora a casa de uma amiga que regressara de uma longa estadia no estrangeiro, com o intuito de passar uma boa tarde a trocar experiências. Ela apresentara-lhe o irmão mais novo, um menino maroto como carinhosamente o apelidou.
Ainda hoje se pergunta o que aconteceu. Seria a magia do dia primaveril, uma febre grassando-lhe o sangue ou o princípio de uma demência desconhecida?
Ambos se olharam e mesmerizaram.
A partir dessa altura tudo o que a rodeava se tornou difuso, distorcido. Tinham brincado com as palavras enquanto os olhos diziam outras. A tensão entre eles era tão explícita que deformava o espaço e o tempo.
A vida fora reinventada. Pareciam falar uma língua primitiva feita  com os corpos em vibrações e cicios. Ela ardia, o corpo em chama a palpitar num louco crescendo, os mamilos a sobressaírem triunfantes na blusa branca. Tinham sorrisos comedidos mas a sofreguidão de um beijo já corria neles. As cores em redor tornaram-se psicadélicas num alucinado e gritante tumulto. Magentas cinabrinos, vermelhos lacre, brancos cintinlantes, explodiam numa atávica orgia de sentidos.
Lembrava-se que tentara manter-se racional mas falhara , corpo e mente enlouquecidos num prazer tão antigo como o tempo. Duas horas de conversa tinham parecido cinco minutos mágicos e intemperados de lava ardente.
Pensando bem, não se lembrava de como a certa altura tinham ficado momentaneamente sós na pequena sala, que de súbito não era mais do que um casulo quente e magnético.
Descontroladamente e sem pensar tinham-se aproximado. O beijo fez os corpos embaterem e fundiram-nos. Foi sôfrego, voraz, canibalesco. O abraço selvagem que os uniu, tornou-os em cometas, supernovas, buracos negros.
A partir dessa altura nenhum dos dois voltou a ser como dantes.
Nos primeiros dias que passaram sem se ver, ela adoeceu de inquietação, o corpo a ressacar a falta do beijo. Não entendia aquele desejo enorme, aquela loucura quase demoníaca que a possuíra. Sentia-se uma deusa por ele também a desejar, a ela uma mulher de 52 anos já vividos, ele ainda um jovem com os 35 anos bem notórios no corpo musculado  e naquela fragante e viciante masculinidade com que a cingira.
Passaram horas ao telefone, alheios a tudo o mais, na inútil tentativa de compreenderem o que lhes acontecera. Ao mesmo tempo iam descobrindo quem eram e criando entre eles elos que como gavinhas cada vez mais os enlaçavam.
Ao princípio achara que era só desejo, uma incontrolável atração que os unira. Mas a primeira vez que fizeram amor, ele tremera como uma criança e ela chorara de uma só vez os sonhos perdidos e as mágoas rebeldes.
No quarto onde o sol lhes pintava os corpos com fórmulas de alquimista, compreenderam que o desejo se tornara paixão. Da janela viam o pequeno pátio onde as laranjeiras se enchiam de frutos doces prenhes de sumo, explodindo depois numa florescência impetuosa.
Impossível não tactearem cada milímetro do corpo e se devorarem com beijos sempre que estavam perto. A suas bocas conheciam todos os recantos e sem tabus ou preconceitos desvendavam todos os segredos. No fim gritavam sempre êxtases, murmurando depois versos no fundo da boca. A carência de um pelo outro era quase uma prece aflita, um cântico de alarme.
Ambos se sentiam virgens de tudo, inventando e reinventando a palavra amor. Porque era de amor que se tratava.
Sabia que o tinham percebido no decorrer dos meses e na morte anunciada em cada ausência.
Tantas vezes ela ia ao seu encontro e ao entrar na casa saltava-lhe para o colo como uma menina ladina. Ele ria sempre subjugando-a com beijos e chamando-lhe miúda louca, a sua adolescente.
Mas a pouco e pouco a preocupação de um pelo outro aumentava, os planos começavam a perturbá-la e a dor de não se terem sempre, iniciou uma rota feroz.
Ela começou a indagar-se, perturbada pelo que fazia. Sempre que passeavam enlaçados, sentia entre eles silêncios rezados que amargavam o pôr do sol.
Sempre fora uma mulher sem pecados a não ser os da imaginação. Há muito que o seu casamento ruíra e o marido seguira um outro rumo sem olhar para trás. Não havia filhos para lhe lembrar o passado e ela nem sequer pensara em encontrar alguém. E ali estava ele, com uma noiva à espera pronta a dar-lhe o que tanto ambicionava: um filho.
Sentia-se culpada, com sentimentos a baralhar tudo invadindo-lhe algo que fantasiosamente construíra. Ela podia bastar-lhe mas nunca lhe satisfaria o sonho.
Num dia de horizontes rubros tinha-o esperado, ansiosa como sempre. Música tocava, canções que lhes punham lágrimas nos olhos enquanto os corpos suados escreviam antigas runas e os rios entre as suas pernas desaguavam sempre num estremecer incontido. Ela juncara a cama de flores que agora lhes perfumavam os corpos. Inúmeras velas criavam caminhos de luz e sombra,  contando a história antiga  do amor entre um homem e uma mulher.
Foram frementes as carícias desenhadas com a mãos. Intensas, poderosas, loucas, a anunciar o apocalipse. Mais uma vez mergulhara nos olhos dele e tentara esgueirar-se pelas pupilas negras e magnéticas. Tinha querido arder nelas enquanto se desfazia no corpo dele. Cheirou-o como fera, embrenhou-se naquele cabelo rebelde e cingiu-o arrebatadamente. E amaram-se vezes sem fim, no eco dos tempos primitivos, como um pássaro aflito num louco bater de asas.
O corpo dela tinha sido instrumento onde ele com mestria tocara acordes rasgados e profundos num inimaginável adagio. E no fim, quando gritaram em paroxismo os nomes um do outro, ela libertara-o.
Durante muito tempo o corpo dele ficou preso no dela numa despedida muda. Não deixara que as súplicas a demovessem. Sentira-se oca mas amava-o demasiado para lhe negar o sonho.
Naquele dia ele partiu primeiro e levou-a colada à sua pele. A mulher que entrara ficou embrulhada na colcha da cama e no perfume das flores que desenhavam a marca dos corpos. Quando por fim saíra, levava os braços enlaçados no corpo à procura do dele. Por dentro a escuridão avançava, a corroê-la numa agonia que ela queria arredar correndo como louca e desfazendo a decisão. De olhos postos na porta fechada, achava que a dor iria acalmar com o tempo, com os anos, com outras primaveras a florir.
Mas a dor nunca tinha passado ou abrandado, num ritual que começava ao acordar e só a largava altas horas quando o cansaço da insónia a vergava.
É certo que erguera barreiras e se habituara a ficar entorpecida, perdida em pensamentos.
Mas bastara o aroma súbito das laranjeiras em flor para que a história daquele intenso amor e dos laços que cortara cerce e sem hipótese de retorno a devorassem como parasitas a roerem-lhe os ossos.
Passados doze anos, sentada no banco banhado pelo odor fulgurante, sabe que a dor lhe traz algo de bom. Com ela reviveu cada minuto do amor perdido e parece-lhe sentir de novo as mãos dele, fazendo-a e defazendo-a como barro moldável.
Nada mudou nela apesar dos cabelos brancos. Adolescente aos 52 e adolescente depois dos 70. Uma alma juvenil e ébria de paixão a espreitar nos seus olhos.
Devagarinho, enquanto o entardecer arrefece o perfume das flores, retira uma folha meio amarelecida do bolso do casaco. Desdobra-a com o cuidado de quem toca uma renda preciosa, as mãos tremendo como uma virgem em dia de descobertas.
Os lábios que sabem bem o gosto de um primeiro beijo nunca esquecido, recitam o último poema que ele lhe deixou.

“ Quando fechar os olhos
tu virás amor e eu farei
do teu corpo a minha casa.
Nas tardes melancólicas
Beijarei os teus seios de deusa
e morrerei em ti, onde sempre me esperas.
As muitas luas que passarem
sobre as nossas bocas
soletrarão o teu nome
e o beijo ardente perdurará
na memória das flores de laranjeira.”



Margarida Piloto Garcia-in BEIJOS DE BICOS-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013





sexta-feira, 19 de julho de 2013

Confiança





Sem que a dúvida te traia
confia em mim.
Desde a aurora a despontar no corpo
até ao ocaso dos desejos
segue a minha rota e peregrina-me.
Desde o dia em que as nossas palavras
caminharam de mãos dadas
até ao momento em que a carne se desprenda dos ossos
e estes sejam apenas cinza a amar os oceanos,
sempre confia em mim.
Não tenho mentiras a chocar contra os dentes
nem salivas que não sejam osculadas.
Trago um abraço pleno
feito de pele branca, onde espreitam janelas azuis.
Apenas te aconchego porque te quero rebelde
e largo-te do cimo da falésia numa liberdade
que será sempre tua.
Por isso, confia em mim.

Margarida Piloto Garcia



domingo, 14 de julho de 2013

Busca




Ando à procura de ti.
Meti-me nesta saga, armada de um espírito de conquista e descoberta, a cabeça cheia de sonhos quase inatingíveis. Ainda não percebi porque tenho este anseio frenético de almejar o ideal. Quem sou eu afinal neste mundo transgénico e longe das lendas arquitectadas em criança?
Dia 2

10,30h
Tu chegas. A passada larga como que te percorre de alto a baixo, subindo-te pelo corpo até aos cabelos revoltos. No meu louco devaneio esqueço-te o fato de bom corte e vejo em direção a mim, um guerreiro viking de armadura reluzente. Fico emudecida no acalento de um corpo a despertar ansiedades. Tento ser realista e ver-te tal como és, de carne e osso, mas ser moura encantada é mais forte do que eu.
12,30h
Ao fim de 2 horas, tenho estampado em mim os restos calcinados da ilusão. Parecias um deus mas não te consegui navegar na voz, nem perceber-te um sentido de vida. Tanta futilidade, tantos rasgos de vida material, tanto que faria as delícias de alguém que não fosse eu.
 Eu...esta mente em alvoroço, este corpo feito de aragem perfumada, das areias quentes de um deserto à espera dessa água que me mitigue a sede sem nunca me saciar.
Dia 8

Procuro-te nas praças, nos areais a parir lonjura e paixões ardentes. Tento encontrar-te no aroma de um café, no apelo de um quadro, no raio de sol que lambe a face.
A insistência deste apelo torna-me frenética, ameaça desnudar-me as paixões e ânsias em qualquer praça pública, incita a minha loucura a desbravar e transpor  os limites que a vida me ensinou.
Se os aceitei foi numa mentira que forjei para mim mesma, para continuar a demanda sem que me venham trazer leis encapotadas de palavras mornas e mansas.
Dia 12

14,30h
Olho-te numa demora escrutinadora. Extraordinário como as palavras te fluem num discurso carismático. Ambos sabemos como fazê-las entoar deliciosos trilos que se insinuam em nós como punhais.
Permaneço num langor que me esvai, enquanto a tua mão enceta uma rota rumo ao meu corpo e a tua boca se aproxima num fôlego a partilhar.
Cerro os olhos ao sol que foge no horizonte, tentando embalar-me na cadência do que dizes. Não quero abri-los para descobrir enganos  e tornar prosaica a poesia do que já dissemos.
Inútil! De súbito gelo, numa recusa que me emudece, quando num arrepiado e consciente momento me apercebo da ausência da fisicalidade entre nós.
Se antes condenava o sonho, agora arrependo-me da realidade que acabo de sentir.
Dia 21

Os dias passam num atar de nós de incertezas e buscas permanentes.
Existirá aquele que me pode trazer o festim do amor que o meu imaginário almeja?
Dia 25

18h
À medida que me lanças um daqueles sorrisos de menino, tento sondar-te  e ver para além do que os teus olhos me dizem. Não acredito em olhares, desconfio da sua veracidade. Sei que por vezes traem, são teatrais e escondem nebulosos segredos.
Lembrava-me dos teus de há alguns anos e do que sempre julguei saber deles. Talvez eu afinal não soubesse tanto assim, e fosse apenas a minha imaginação que me incapacitasse de um juízo fiel.
Mas continuas a agradar-me  com o teu corpo esguio a tentar cingir o meu, os teus lábios frementes, que antes da busca dos meus, tentam dizer palavras que sabes de antemão o meu intelecto te exige.
Estás perante mim e eu penso, num ardil que lanço a mim própria, se a busca terminou.
Escondido atrás da porta o amor hesita, e à laia de um cupido ladino e ardiloso, pisca-me o olho e abana a cabeça.
Ainda não...


Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pedido em três tempos





Pediste-me que te dissessse que te amava.
Cá dentro havia febre como água a correr
vontade que a garganta se abrisse
e que as palavras pressurosas
saíssem  mesmo que atropeladas.
Queria gritar em mãos cheias
de vibrações, o que o corpo não calava
nas ondas azuis e ansiadas
de uma juventude crepitante.
Mas eu ainda mal aprendera o nome das palavras
 que apenas me permitia murmurar.

Pediste-me que te dissesse que te amava.
Não precisavas, não precisaste nunca.
“Amo-te” era uma ladaínha
que eu orava no teu corpo
mãos em cadências raras
toda eu em devota adoração.
“Amo-te” não tinha hora ou dia
ressoava mesmo nos silêncios
em que tu não estavas
ou formava um rosário de pérolas
a escorrer da minha boca
para tudo o que eras tu.

Pediste-me que te dissesse que te amava.
E eu tremi no dia quente
sentindo o frio de um vampiro
procurando-me o sangue.
Queria escorregar na tua pele
lambendo nela a palavra desejada.
Mas agora não há força que me faça
descerrar os lábios
nem cavalos selvagens
à desfilada no meu corpo.
Não quero atar-te numa mentira cega
e o que me pedes não encontra espaço
para ti, no meu vocabulário.
Mergulho o olhar no horizonte
e apenas te abraço.


Margarida Piloto Garcia