domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ousadia






Levanto-me da aridez do dia pasmado e decido que hoje vou voar, jogar-me lá do alto de uma montanha e planar sobre o mar. Quase que sinto na boca, o ar prenhe do perfume pungente das acácias e quero render-me ao medo sem que ele me violente.

Não sei, mas talvez hoje pegue no carro e parta em direção a lado nenhum. Vou levar os ouvidos a escorrerem um soul profundo que me corrói a pele e procurar por aí a solidão dos que me são iguais.
Atrevo-me a encontrar-te, sentado num areal perdido onde me cegas os olhos e me prendes o tacto.
Dispo-me de preconceitos, para que no meu corpo grites como as gaivotas que nos surpreendem e pasmam.
Juntamente com o sol, preenches-me e transformas-me num cristal translúcido. Não te conheço, mas já te ouvi tantas palavras, que agora só preciso do primitivo enlace. Não gritarás sozinho, porque tenho esta ânsia de te dominar e de saber que na tua boca, o meu nome é prece suplicante.
Ouso ir mais além e procuro nas azedas amarelas, um outro que me traga cânticos de guerra gravados em runas milenares e mate esta fome suicida e sôfrega de que não sei o nome.
Há um mudo e atávico sentimento, que dentro de mim ata nós em que me enleio e cria enigmas que não sei desvendar.
Hoje vou ser louca num filme de cinema mudo.
Calei todas aquelas palavras que desfilam permanentemente em mim, numa esquizofrenia alheia aos outros.
Transporto comigo um vendaval que já ninguém pode travar.
Percebo agora que a minha ousadia é muito maior e vai mais além. Roeu todas as grilhetas, rebentou barreiras e tem um nome que não posso pronunciar. Deixou de se esconder e enfrenta-me disposta a triunfar sobre uma cobardia acomodada.
Não mais algodão doce, apenas o travo amargo da verdade a deixar antever especiarias picantes de que a vida é feita.
Sou a última partícula de um universo em explosão. Nada mais para além de mim, do que sou, do que resta, do que sempre fui. Um sonho atormentado lido nuns olhos de criança.
E é hoje e é já, que me atrevo e que ouso.
No alto da montanha ou nos corpos que enleio, busco a minha verdade pela última vez.
Se falhar, que importa?
Vou acabar gritando madrugadas para sempre e Fernão Capelo jamais será gaivota.

© Margarida Piloto Garcia




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