terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A chave




Tinha uma chave feita de lágrimas e suspiros.
Guardava-a misturada com um vestido de seda
dançado a pares no teu ombro.
A chave era mítica e destrancava labaredas e caminhos de luz.
Pendurava-a à cintura, quando requebrava as ancas
ou ondeava o ventre e as mãos, num chamamento de véus orientais.
Com a chave abria os caminhos do meu e do teu corpo
e cantava melodias nunca interrompidas.
Sei que descobrias em mim o prazer escondido mas por ti sonhado.
Sabias de cor o cheiro da minha pele e os relevos do meu corpo
e levavas-me o coração guardado nessa chave.
Eu acreditava nos segredos que ela abria
quando juntávamos as mãos nos passeios por entre os rios
que escorriam pelas nossas pernas.
Numa travessia por um eterno deserto, guardava-a sequiosamente.
Um dia perdeste o passo, o rumo.
Embriagaste-te numa rota de pequenos veleiros e os grandes navios seguiram comigo.
Hoje não há chaves, apenas estacas a delimitar fronteiras.

Não me procures por aí.
Para onde vou, levo apenas a companhia de uma gaivota pousada no ombro.
O resto...é silêncio.

Margarida Piloto Garcia






2 comentários:

mfc disse...

A desolação de quem viu o sonho esfumar-se, dito de uma forma doída e bela!

Anónimo disse...

Há sempre uma segunda chave na vida .V.C.