quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amor perdido



Na manhã outonal escrevi-te um poema.
Tinha o gosto do orvalho matinal e o aroma das maresias desaguadas em mim.
Tu trazias  o cansaço do tempo feito sonho, mas sorrias com os olhos.
Plantei em ti uma flor amarela e acalentei-a.
Às vezes as tardes eram tão vibrantes que a flor exalava perfumes de corpos extasiados.
Pouco a pouco, as aves que me falavam de ti, partiram.
E a flor chorou pétala a pétala o amor perdido.

Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Este desejo



O teu corpo tem linhas de fumo e luz a delinear o horizonte amanhecido.
Eu descubro em mim uma papoila ardente a inundar-me o ventre em chicotadas.
A boca enlouquece na espera, mais do que do teu beijo, da tua seiva de mortal a imitar os deuses.
Na seda fria da cama tento ungir o corpo das delícias nocturnas que nele semeaste.
Eu sou fada, lírio, morte anunciada. E tu és poema, vela de navio, espada ardente de tempos ancestrais.
Cruzas o quarto envolto em aromas acariciados e trazes-me a tua pele fresca para eu a transformar em lava.
Toco-a e faço-a minha. Ora me submeto, ora te ponho na boca implorantes frases.
Este meu desejo é tão insaciável como o teu.
Desenha em nós um amor perfeito, embalado em histórias de encantar.
E em cada vaivém de desespero eu espero a tua vida e tu guardas a minha para sempre.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013




segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sabedoria





Sabes do que falo?
Destes mistérios feitos casulos no peito
deste arfar meio louco
desta canção desgarrada a tremer sentidos
e a alvejar-me impiedosamente?
Sabes do sol a mergulhar no horizonte
enquanto eu tento aprisioná-lo e bebê-lo em flutes geladas?
Procuro desabrochar por entre os meus temores
mas tu trazes látegos na voz e eu revisto-me de aço.
Torno-me numa estátua açoitada pelo vento
a alma prenhe de vagalumes  e aromas noturnos.
Sabes como se morre?
Mordendo as madrugadas
na orgíaca lembrança de uma tarde de amor.


Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL 4 "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2013












quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Tempo






Não tenho tempo para palavras presas na garganta
nem para olhares plenos de mentiras.
Agora o caminho tem de ter uma ponte que atravesso
com a minha mão na tua.
Não perco mais alvoradas pintadas no horizonte
enquanto a minha pele ainda exala o perfume da tua.
O passado é uma ária que ambos entoámos
enquanto cruzávamos uma savana de feras.
Hoje sou um barco de velas desfraldadas a navegar mar fora.
Levo comigo o vento a sussurrar-me os beijos que trocámos.
Tenho esta pressa de te ter
sempre agarrado a mim como uma âncora.
Por isso o tempo que não tenho é todo teu.

Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013




domingo, 10 de junho de 2012

Morte


 E lágrima a lágrima teço uma mortalha.
 Não me dêem louvores que já não ouço.
 Não me tragam beijos que já não sinto.
 Preciso de oblívio, de um buraco negro que me sorva.
 Não quero sorrisos...nem carícias.
 Não me mostrem paraísos que não existem.
 Quero uma estrada lisa, rude, informe.
 Quero tropeçar em cada raiz das árvores que não plantei e esmagar cada flor quando cair.
 Espero apenas um sol vermelho quando chegar ao abismo e a morte me sugar

 Margarida Piloto Garcia



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A chave




Tinha uma chave feita de lágrimas e suspiros.
Guardava-a misturada com um vestido de seda
dançado a pares no teu ombro.
A chave era mítica e destrancava labaredas e caminhos de luz.
Pendurava-a à cintura, quando requebrava as ancas
ou ondeava o ventre e as mãos, num chamamento de véus orientais.
Com a chave abria os caminhos do meu e do teu corpo
e cantava melodias nunca interrompidas.
Sei que descobrias em mim o prazer escondido mas por ti sonhado.
Sabias de cor o cheiro da minha pele e os relevos do meu corpo
e levavas-me o coração guardado nessa chave.
Eu acreditava nos segredos que ela abria
quando juntávamos as mãos nos passeios por entre os rios
que escorriam pelas nossas pernas.
Numa travessia por um eterno deserto, guardava-a sequiosamente.
Um dia perdeste o passo, o rumo.
Embriagaste-te numa rota de pequenos veleiros e os grandes navios seguiram comigo.
Hoje não há chaves, apenas estacas a delimitar fronteiras.

Não me procures por aí.
Para onde vou, levo apenas a companhia de uma gaivota pousada no ombro.
O resto...é silêncio.

Margarida Piloto Garcia






quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Passeio





Dou-te a mão e espero.
Tremem sentidos na pálida madrugada
e o nevoeiro escorrega-me nos nós dos dedos.
... Levo entrelaçado nos cabelos, fios de histórias por rematar.
Caminho no ondear das palavras
enquanto a cidade escorre no som das memórias relatadas.
Quero acreditar
que o rio me leva ao mar imenso, parindo barcos de velas enfunadas.
Em cada nuvem um pensamento
em cada onda uma sereia.
Sigo o caminho de mão dada buscando nesse enredo o calor do sol
e o aroma das cerejas, tintas e carnudas.
Na palidez do dia escondo o coração no bolso do casaco.
E sigo de mão dada, como um fantasma na neblina matinal.


Margarida Piloto Garcia







quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Final



Não tenho mais palavras.
Gastei-as no fundo da tua boca.
Fiz com elas ondas salgadas com que te penteei os cabelos
e te lavei o corpo.
Nas tuas meigas mãos depositei-as
e deixei que me descobrisses os segredos
e me percorresses em vagas de paixão.
Entre nós havia um raio de sol sempre a pôr-se no horizonte
e tu cobrias a minha pele de flutuantes carícias
só visíveis aos olhos dos deuses, das montanhas e dos mares.
Hoje gastei as palavras nas pegadas deixadas na areia
e na tua boca não escrevo mais poemas de amor.

Margarida Piloto Garcia in-PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um dia




Um dia
vou dizer-te palavras bordadas a bilros
traçando um labirinto que tu procuras percorrer com os lábios.
Vou olhar-te com olhos que te falem de mim
e onde as promessas dançam tangos de paixão.
Um dia, um dia...
Vou ensinar-te a percorrer os caminhos que levam ao meu colo
onde descansas a cabeça das intempéries da vida.
Passo a passo
gesto a gesto
carícia a carícia
quebras as barreiras e teces a teia dos desejos.
Um dia
vou surpreender-te e pôr a alma nua nos contornos do teu e do meu corpo.
O desenho dela vai cantar-te baladas
e as tuas mãos dançarão nas curvas dos meus seios
ao afundar-se em mim como um cisne morrendo.


Um dia
tu vais olhar as minhas rendas pretas e desnudar-me os ombros.
Murmurarás palavras ciciadas, urdindo um feitiço enquanto o sol se põe.
E inevitávelmente beberás dos meus lábios
a magia que te entardece os dias e inebria as noites.

Saio de madrugada ao teu encontro
a boca tremendo
o coração louco
a pele fervendo na espera do teu toque.

Um dia
vou contar-te este meu sonho.
Talvez quem sabe..um dia.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013