domingo, 28 de novembro de 2010

Destino






Eu já era assim
Tinha sagas futuristas agarradas nos olhos
e cobria os recantos escondidos e aconchegados
de poalhas de sonhos.
Em cada noite
fazia clones sem parar
uma máquina inconfundível de realidades estropiadas.
Quando as manhãs rasgavam o conforto
procurava na vida as personagens só imaginadas.
Eu sempre fui assim
ingénua e despudoradamente sôfrega
uma louca em banda desenhada.
As minhas mãos têm recordações táteis
guardadas para desfiar num rosário de noites brancas
em que a mente desenha borrões de tinta viva pingando gritos pelo quarto.
Tento não ser assim
mas escrevi um destino torto em fase terminal.



Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013



quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ritual




Uma mulher normal
conta as rugas do descrédito, reflectidas no espelho desdenhoso.

Deixa os dedos
percorrer as estradas do cabelo naufragado nos ombros.

Escreve melancólica
palavras de uma só sílaba, que contabiliza com esmero.

Desmaia
no último veludo da pele acariciada.

Uma mulher normal
fecha a porta do castelo numa dança febril.

Reúne os últimos despojos
e cerra as asas, cansada da borboleta que já foi.


Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Grito







Venho dizer-te
que eu sou eu
e nunca ninguém poderá ser eu.
Trago um pássaro no peito
que se agita e estremece
cravando-me garras aguçadas.
Sei que não compreendes
o labirinto que a minha língua percorre
mas hoje os minotauros fugiram do meu sonho.
Se tenho olhos de corça
foi porque amordacei paixões e lhes calei a voz.
Agora canto silêncios
e estendo-os no luar da vida.
Confesso-te esta alma inquieta
feita de marés e remoinhos
mas não quero ver-me no espelho dos teus olhos.
Aqui onde me encontro
cobri de aço a alma rasgada
tranquei-a para sempre no meu eu.
Flutuo sem pensamentos
até que o pássaro nada sinta.

Mas eu sou eu
e até que me dilua na cinza universal
vou deixar rastos no teu corpo.


Margarida Piloto Garcia in- POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA

Arte de Delawer




domingo, 14 de março de 2010

Poeta




Tenho um poeta
que me canta versos navalhados
plenos de êxtases e de mágoas
deixando em mim uma marca feroz.
Nas esquinas do meu desejo
entrelaçam-se rotas em carne viva
gritadas loucas ao vento suão.
O meu poeta
é uma ave madrugando as palavras
cheirando-me o cabelo em sussurros.
Inquieta, corro por entre os sons desenhados
sem saber o que fazer com a eternidade dos sentidos.
Ficam agrestes e soluçantes
as arestas do meu pensamento
um caudal de emoções em lava abrupta.
Nas marés vivas do que escreve
há raios pranteados de luar
caminhos secretos e paixões.
Este poeta que me morde os flancos
e me rasga a roupa
traz sinfonias incompletas ao meu desespero.
Cega o meus olhos de corça
enche o meu ventre de mel
e pinta a minha boca de cobiças.
E assustada fujo
estropiada na embriaguez dos versos.


Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013






domingo, 28 de fevereiro de 2010

Agonia






Vieste nesse dia
e trouxeste ramos de absurdos
e raivas incontidas.
Dentro de mim
um pássaro bateu asas aflito.
Auroras rubras
tentaram desfazer o meu querer
e atiçaram emoções fogosas
mas eu já me perdera em nevoeiros.
Sou um canavial ao vento
e todas as gotas de chuva me devoram.
O pássaro dentro de mim
é uma fera aflita
um grito
um sopro
uma esperança.
Todas as dores me roem
as algemas com que teimas em calar-me.
Não sei mais quem tu és
mas sei quem sou:
um pássaro morrendo na madrugada.


Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013

Arte de Felix Más