quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dossel



Hoje quero a minha cama no ocaso.
Drapeados negros no meu sentir
Tons de prata a aflorar-me a pele
e um leve tom rubi com que me cubro.
Quero um leito desnudo, jangada primitiva
que navegue e traga sonhos vividos
mistérios relembrados.
Doce brisa leve e odorífera
sopra no meu corpo, carícia amedrontada.
Descaio a cabeça no doce sono
um Morfeu que esqueci
e esculpe em mim saudades
de arroubos e pele a gritar.
Não quero luares no meu dossel.
Apenas preciso de um veludo azul
de um doce deslizar sem impressões digitais.

Margarida Piloto Garcia -in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013


sábado, 22 de agosto de 2009

Blogagem colectiva de Agosto no "Vou de Colectivo" Carta de amor.



Era uma vez uma carta de amor

Hoje resolvi escrever-te a tal carta de amor que tanto tenho adiado. Não sei se foi o tempo que nunca chegou, se foram as palavras que faltaram, mas hoje pensei escrever-ta ao ver-te ao meu lado num sono pacífico... Certo que não precisavas de ter deixado a roupa toda pelo chão e já sei quem a vai apanhar mas... Dormes e eu deslizo os meus olhos pelo corpo que adoro tactear, sentir meu, cheirar... Bem, não tenho querido dizer mas detesto aquele novo perfume que a tua mãe te deu, mas enfim... Sinto vontade de te acariciar os cabelos, despenteá-los enquanto dormes... Pois, bem sei que não passa de sonho pois tu detestas que te estrague o penteado e eu guardo esse desejo como uma fantasia fechada a sete chaves. Mas olho-te e apetece-me dizer-te palavras doces, apaixonadas, dizer-tas num delicioso jantar à luz das velas em local romântico... É, podia ser assim, mas detestas o cheiro das ditas e jantar fora de casa, bolas e lá vou eu a correr para a cozinha. Mas pronto, as palavras de amor vão ficar para quando estivermos encostados lado a lado, bem aconchegados no sofá... Espero bem que não tenhas deixado por lá o jornal e não te apeteça fazer um zapping louco numa procura de não sei o quê!
Não sei bem como, mas as palavras seguiram outro rumo à medida que te ia escrevendo. Acho que ainda não estou pronta para a tal carta de amor, ou de raiva, já não sei bem. Este é mais um rascunho deitado no cesto dos papéis, o embrião de algo adiado.
Juro que queria muito escrever essa tal carta de amor, mas já não sei fazê-lo ou talvez, quem sabe, a vida tirou-me o jeito. Também, para que queria eu escrevê-la se tu detestas ler.

Margarida Piloto Garcia


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vício





Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada.
Que não saiba a café
ou a desamores.
Que não transborde paixão
para dentro da minha boca exangue
e não diga frases molhadas.
Não quero um beijo rubro
carregado de ânsias febris,
um almiscarado ósculo
com um currículo de mágoas, de paixões
de raivas tracejadas.
Quero um beijo meu.
Não sei se é cândido, se devasso
mas traz em si um rótulo diabólico
um carimbo que não passa de prazo
uma tatuagem que morde e infecta.
Bebo nesse meu beijo a saliva de outro
o despudor da alma desnuda
o vício de largar na boca
inconsequentes devaneios.
Nos meus lábios sinto quebrantos
e orgias seladas com lacre.
Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada
que não seja de ninguém.

Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Boneca partida



Definitivamente há que pedir desculpa aos que acreditaram e investiram. Não que o seu ser seja feito de enganos, apenas de medos .Esse medo escuro que não tem cura, o fruto de uma pressão de que não sabe o início. Esse medo trava-lhe os passos, joga-a no chão, impede-lhe o sentir. E dentro tudo galopa furiosamente, devorando. Não pode mais calar que há que pedir desculpa aos que sonharam. Que mais fazer? Não sabe se algo se partiu no mecanismo original, talvez um defeito de fabrico que a impede de dizer...Quero! Querer ela até quer e até diz. Mas os passos a dar não são possíveis para a sua quadriplégica alma. Algo falhou, algo lhe corroeu o ânimo, a força. O monstro aterrador que sempre lhe assombrou as noites afinal existia. Não vale a pena esconder mais. Há que deitar a cabeça no cepo para que o carrasco a cale de uma só vez, sem delongas, sem demoras. No meio da dor intensa não vai dar por nada.

Margarida Piloto Garcia


Foto de Yvone Gort



sábado, 8 de agosto de 2009

Caminho




Ao lamento incessante
junto a palavra dura.
Verto a lágrima polida
de tantas arestas limadas.
E sigo.
Quero saltar o abismo
como se o amanhã não existisse.
Não construo pontes
Não enleio lianas
Não sei tirar as asas
aos pássaros de cor deste meu leito.
À melopeia dolorida
junto um cântico de bravura
passos batendo ao rufar dos tambores.
E sigo.

Margarida Piloto Garcia