sábado, 27 de junho de 2009

Noites de Grieg



Grieg soa vitorioso nos meus ouvidos.
Transborda-me a alma
revolve-me entranhas
esfiapa-me a vida em lençóis de desespero.
Noites de Grieg são catarses que deixam cicatrizes.
Vampirizam-me a mente
esqualos predatórios.
Adormeço em mares azuis
mas sou devorada por sombras cinzentas.
O meu íntimo é um vendaval vivido e não domado.
Paira à minha volta uma teia de aranha.
Vislumbro-a num doce emaranhado
tecido em pálidos sonhos antigos.
Não me abusa nem me atemoriza esse silêncio.
Traz-me a paz e a eficiência das aranhas
um mergulhar em mim
uma felicidade fetal, verdadeiro watsu.
Mas abandono o esconderijo silencioso
e deixo a alma desnudar-se aos sons.
Grieg arrebata-me numa paixão sem fim.

Margarida Piloto Garcia in POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013







terça-feira, 23 de junho de 2009

Pintura





Pinto o beijo na face cor de lua
e traço em pinceladas
as margens do teu corpo.
Caminhos que as minhas mãos desvendam
debitam cor de rosa e carmim.
Fraseio nos teus lábios sussurros desmedidos
e enlaço e entrelaço
as linhas que nos unem.
Os gritos que não calo
explodem-me na pele em rubras cores.
Cruza os meus olhos esse fogo dos teus.
Mas somos náufragos de um amor perdido
pintura de Monet em tarde cálida.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013

Quadro de Claude Monet





quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desejos



Raro é o desejo que ao ser satisfeito não te deixa marcas a ferro e fogo. E depois, para quê esperar com denodada ansiedade a meta escolhida, a visão que te assombra as noites e te devora os dias? Tal como numa viagem, enches o teu eu de quimeras, de expectativas, de sonhos para fruir e saborear. O teu sangue estremece, a tua alma é um pardal saltitante, o teu sangue pulsa a cada batida de espera do teu coração. E depois? Há momentos empolgantes que te desenham tatuagens líricas e há as mágoas e as decepções que te esculpem por dentro a sangue frio. E à medida que a viagem se aproxima do fim, começas a sentir o nó da privação, do retorno a velhos males e a páginas por colorir. Assim são os desejos satisfeitos, a morte dos sonhos, a esponja do quotidiano. E no entanto levamo-los connosco, acolhemo-los dentro de nós, numa ânsia constante, num quase vício de que não nos desprendemos.
Desejos e sonhos são traços de nós.

Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 10 de junho de 2009

E.T



Soergue a mão e deixa lentamente escorrer areia por entre os dedos.
Contando cada grão, uns mais escuros, outros mais brilhantes, xistosos, ela mede cada segundo de vida e deixa-os cair e desaparecer lentamente, numa chuva miudinha e dispersa.
Com os segundos passando, num tempo que não se detém, conta os grãos, e a memória regressa a uma praia onde as mães cuidam dos filhos, onde os toldos enfunam ao vento.
Há velhos bancos de madeira com pequenos orifícios pelos quais a areia escorre para formar castelos.
Os castelos são de areia tal como os sonhos, mas ela ainda não sabe e sonha.
Os sonhos são de menina mas contêm o germe de todos os sonhos.
E o pensamento é livre e escorre, tão palpável mas tão etéreo como a areia que agora lhe escorrega por entre os dedos.
Devagar, devagarinho, ela descalça-se como no strip mais intimista e mergulha lentamente os dedos dos pés na areia fresca da madrugada, macia como uma virgem por desflorar.
A sensação de que se recorda ano após ano, regressa num impacto súbito.
É sempre a mesma!
Os grãos que escorrem da mão, são o anti-clímax da profunda e sensual sensação de puro deleite, enquanto deixa os pés escorregarem e enterrarem-se profundamente na seda fria do areal.
Um sorriso transcende-lhe as comissuras dos lábios e retira-lhe o ricto um pouco amargo de acumulados desalentos.
E à medida que a pele aprofunda as sensações, ela sente cada poro aspirar o aroma pungente da brisa marinha.
São tantas as emoções que a percorrem, que já não sabe exactamente onde começa e onde acaba a paixão e a volúpia dos grãos de areia fria da alvorada.
Saboreia o momento, numa vibração quase orgásmica que não precisa de parceiro, porque existe dentro de si
.Ela sabe que o momento é breve tal como a realidade, porque o sol vai aquecer a areia fria e os sonhos têm de ser recolhidos muito fundo.
Fundo, tão fundo que às vezes se esquece de sonhar e é nessa altura que o travo metálico de uma morte anunciada a faz vacilar.
O momento aproxima-se e a dor fá-la retrair-se numa estátua.
Tenta desesperadamente agarrar o último resquício da sensação que não quer perder, da emoção que não quer largar, da paixão que não quer deixar arrebatar do corpo, da alma, de todo o seu pensamento.
Agarra com força o último punhado de areia e cerra-o na mão fechada.
Nas costas da pequena mão que lhe recorda a criança de outrora, uma veia azul serpenteia como o caudal de um rio.
Segue o rio, navega nele olhando-o com duplicidade da margem e, pouco a pouco, muito lentamente, à medida que o sol se torna mais intenso, abre lentamente a mão fechada e deixa os últimos grãos de areia cairem, já mortos, pisados e húmidos, junto dos seus pés.
A névoa dissipou-se.
Quando levanta a cabeça das mãos, as paredes do quarto encerram-lhe o corpo e a vida.
Os olhos seguem a luz que entra pela janela.
A média distância erguem-se mais paredes, mais janelas, num cenário de um qualquer planeta que não é o seu.
Recolhe à posição fetal.


Margarida Piloto Garcia


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Memória




Naquele dia
reinventaste a vida.
Com que magia me feriste?
Os teus olhos eram brasas ardentes
e eu queimei nesse ardor.
Falaste a língua primitiva
dos homens e mulheres que amam.
Horas e horas que pareceram
apenas um relâmpago.
Vibrações e cicios
correram entre nós,
lampejos cintilantes e febris.
No teu sorriso brilhava
a sofreguidão de um beijo
e novamente a língua dos amantes
movia-se entre nós mas sem se ouvir.
Na pele palpitante
corriam rios de desejo
e o corpo sussurrava.
Naquele dia
a loucura implodiu em nós.
Tudo se subverteu e se moldou
num hino a algo louco e belo.
O branco era mais branco
reluzente e chamativo,
tal como a blusa que me emoldurava
e onde tombavam feridos um ou dois caracóis.
O ar carregava de estática
os corpos flexíveis.
Algures em meu redor
as cores viravam magenta
com um toque de cinabre.
Naquele dia
os deuses enlouqueceram
e nós, simples mortais,
não passámos de barro
moldado caprichosamente.
Não havia barreiras
fronteiras
algemas entre nós.
O beijo fez
os corpos embaterem
fundiram-nos.
Foi sôfrego, voraz,
canibalesco.
Transformou-nos em tochas a arder
em fogo de artifício inconsequente.
Tudo era atávico
tão primitivo como o primeiro homem.
Naquele dia renascemos
fomos cometas, supernovas, buracos negros.
Embriagados num turbilhão
ascendemos a alturas nunca imaginadas.
Fomos lava ardente
oásis num deserto
arcanjos de asas negras.
Nada nos afastava
na atracção magnética.

Naquele dia quando tu partiste
levaste-me colada à tua pele.



Margarida Piloto Garcia