terça-feira, 28 de abril de 2009

Atreve-te




Atreve-te.
Pisa os recalcamentos da mente original.
Origina ciclones de demência.
Alarga o horizonte até que o ultrapasses.
Parte para as estrelas e explode em supernova.
Não há maior abismo que o que crias, sentes, manipulas.
Se te arrependes...pensa.
Deixa que a água te escorra em gotas orvalhadas.
Prende-as nos lábios, saboreia.
Devagar, devagarinho, leva à loucura a mente paralela e suplicante.
Deixa jazer aos pés a vontade submissa.
Procura o ritmo que te faz planger em notas discordantes.
Sonda a magia das coisas proibidas, nunca ofuscadas,
diamantes negros avassaladores.
Sente o pedido na tua alma primitiva
e liberta o fogo dos infernos.
Nem anjos nem demónios poderão defrontar a guerreira que és.
Exige o tributo à tua condição.
Se pedes, vais obter a vida negada,
as mentiras embrulhadas em papel de seda,
as promessas como berlindes coloridos.
O que te ensinam a querer são cachos de uvas maduras,
suculentos ao sol orgíaco do poente, colhidos no suor de corpos e alentos.
Por isso perde-te e encontra a rota dos desejos.
Desliza na noite negra de cetim, esmaga a teus pés a doçura febril e ávida mas fresca.
Renega as histórias de encantar e prova a exótica iguaria.
Exige, manda, quer.
Atreve-te.

Margarida Piloto Garcia


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Volúpia





Olho-me, feiticeira
num espelho ondulante
descortinando largos caracóis.
Os teus braços cercam-me
e a tua boca no meu pescoço
desperta o desejo ensolarado.
Sinto na minha pele
as tuas impressões digitais
linhas que me dançam no corpo.
A tua mão percorre este meu rosto
de modo a decorá-lo.
Os teus olhos penetram-me na alma
e o som da tua voz
morde-me em labaredas cintilantes.
Todo esse suor que cola o teu corpo ao meu
é um bálsamo que sara as nossas feridas.
O teu riso é um soluço no meu peito
e eu tento beber as tuas lágrimas
com os meus lábios sôfregos.
Não sei explicar o frenesim
a loucura partilhada.
As nossas mãos são marionetas
que o amor comanda.
Já aprenderam os segredos todos
e os porquês de sermos nós.
Gosto de fazer as minhas dançar no teu cabelo
e pintar de sombras o teu corpo.
Há melodias tecidas entre nós
ritmos de um ballet
ora místico, ora carnal.
Pinto nas paredes telas flamejantes
oníricos poemas a deuses ancestrais.

E depois, perdemo-nos sempre
para nos voltarmos a encontrar.
Rimos dentro das bocas
dentro dos corpos
dentro da vida.
Rimos porque sabemos
que um dia a vida nos fará chorar.




Margarida Piloto Garcia


Obra de Elieni Tenório





domingo, 19 de abril de 2009

Viagem





A mão que se estende
em muda súplica
foge à compreensão de quem tu és.
Fecha os olhos
não te escuta
nem te quer entender.
Tu és sómente deusa de ti mesma
e tudo sacrificas
em mítico altar.
Partes só
e só regressas
viajante incansável
de um sonho infinito.


Margarida Piloto Garcia





segunda-feira, 13 de abril de 2009

Requiem




Ele disse que sim.
Ela disse também.
Apenas um jogo
um erotismo subtil
fugindo à rotina, às frustrações.
Eles sentiram pele, carícia, beijo.
Amaram-se na obscuridade dos desejos
e ele disse que não
nada de amarras, paixões.
Ela disse também.
Ela mentiu.
O coração rebentava
pulava, os olhos coruscantes
a boca tremida, a pele palpitante.
Mas ela disse que não.
Dias depois
ele disse que sim.
Ela disse rasgando a couraça, que sim e sim também.
Ele não soube explicar
que o jogo falhara
que a paixão dominava e o feria.
Amaram-se sempre em vagas alterosas
e trocaram ternuras, anseios e receios.
Confessaram-se no altar sagrado
da chama que os unia.
Não eram beijos
porque uma boca só
já os unia
e em corpos suados ele cantava-lhe
êxtases sem conta.
Mais tarde
Ele disse que sim.
Ela disse também.
Rugiram gravemente os pensamentos
do...e agora?
Deveriam fugir. largar as mãos
perder o tesouro encontrado?
Mas eram um só e as lágrimas rolavam.
E o amor fê-los desaparecer
numa espiral hipnótica
que domou o tempo.
Perdidos noutra dimensão
os corpos suados, amados,
lambidos, amassados,
as loucuras perpretadas e vividas
sem sombras de futuro inexistente.
Raios filtrados na janela
tornavam-na mais bela.
O cheiro da pele dela, brilhava
no tónus da pele dele.
E os olhos brocavam o peito sem piedade
e o amor era uma bigorna martelada.
Um dia ele disse que não.
Ela disse talvez, na sombra do engano.
Ele seguiu em frente.
Ela virou para trás.
A paixão e o amor foram guardados
no baú do nunca e enterrados.
Os nãos e os sims
o jogo viciado
foram coroa de flores em campa rasa.
Sobraram de mãos dadas dois fantasmas
que se amam sobre ela
em noites de lua cheia.


Margarida Piloto Garcia



segunda-feira, 6 de abril de 2009

Epitáfio





Sobre o caixão dos sonhos
deitas simples flores.
Em breve a campa será rasa
e tudo apodrecerá na escuridão.
O meu fantasma
afoga-se em lágrimas sangrentas
pintadas em quadros de Pollock
cantadas em melodias de Caruso
e adormecidas nas palavras de Andion.
Conto cada ruga ao pormenor
cada ano passado
cada minuto vivido.
O sol, há muito que se pôs neste horizonte,
onde dancei tangos no cemitério da vida.

O meu querer não tem fim
mas as palavras são cruzes
e os sentimentos afundam-se no pranto.
Não sei se as coisas têm um porquê
mas hoje, sou apenas um anjo caído
uma borboleta sem asas.

É funda e negra
esta cova sem pedra tumular.


Margarida Piloto Garcia





sábado, 4 de abril de 2009

Mais a norte





Numa qualquer praça
beijo leves raios de sol.
Espreitam sorrisos ténues
filtrados por líquido ambarino.
Tento descortinar pensamentos
rotinas vagas
trejeitos e meneios.
Parecem-me distantes
os humanos presentes,
produtos de uma outra galáxia.
Numa qualquer praça
alinho pensamentos
e deixo as linhas escorrerem no papel.
Sinto-me bem
de alma liberta
enquanto os olhos saltitam
nas bebidas das mesas,
nas frases soltas,
no corre-corre das gentes açodadas.
Algures no passado
deixei as dores arrumadas
e o pensamento é agora um bálsamo
leve e saboroso,
dois dedos de espuma
gota escorrendo
húmida ao tacto.
Os odores de uma vida
acariciam-me inusitadamente
num dia, numa tarde
numa qualquer praça.



Margarida Piloto Garcia