sábado, 28 de março de 2009

Abismo





O nulo absoluto
oprime e exige.
Quando te apercebes...
já nada tens.
As imagens surgem-te desfocadas.
As letras são corropios em veloz retirada.
E restam-te sonhos idiotas.
Descobres-te na ridícula paisagem
do faz de conta.
Prometes não voltar.
Mas voltas, vezes sem conta.
Rejeitas o que te oferecem,
pela procura da negra perdição.
Afundas os sonhos.
Mergulhas na maldição.
Tudo o que és de bom é subvertido.
Perversamente aceitas que já nada te resta.
Desejas o vórtice da loucura,
as algemas que te rasgam a carne
desde que do outro lado a vida exulte.
Os teus desejos são intransponíveis,
transitam num vislumbre
pelo negrume dos outros.
E as horas passam
desfilam anorécticas em sedas transparentes.
O teu relógio morde-te, fere-te,
dilacera-te em pedaços a espera.
E não tens dúvidas...
de que tens um abismo no lugar da alma.



Margarida Piloto Garcia








quarta-feira, 18 de março de 2009

Perdão






Perdoa-me
se não te soube amar.
Jazias informe e exangue
num cativeiro há muito acomodado.
Abri-te as portas da prisão
e mostrei-te o mundo da magia.
Inventei histórias de encantar
artes de mulher tornada
Xerazade.
Dei-te a vislumbrar o paraíso
e convenci-me duma
felicidade incerta.
Provei da tua boca o mel
das palavras há muito esquecidas.
Desenhei-te na pele
uma marca invisível
que agora te arde e te magoa.
Mostrei-te horizontes de partilhas
em vastos areais.

Nos mistérios desenhados num ecrã,
a matéria explodia louca,
inusitada
pinturas luxuriantes em paleta de mestre.
Transformei desastres
em façanhas,
brinquei de faz de conta para te ver sorrir.

Algures lá fora a vida
continuava cruel como costuma ser,
alheia aos devaneios de um romance.

Perdoa-me se não te soube amar
se te calei a voz
se te cortei as asas
se fiz da tua vida algo vazia
o tormento de um coração cheio.
Desculpa-me
as migalhas preciosas
com que teimo afagar-te
e dar-te alento.
Mas há coisas que a minha
alma rejeita,
grilhetas que eu não ouso
ora quebrar
ora trocar por novas.
Quero ser livre
como o pensamento
e expurgar de mim
todas as dores.

Perdoa-me
se não te soube amar
mas o meu coração
é apenas uma bola de cristal
que eu não sei desvendar.



Margarida Piloto Garcia


tela de Francis Picabia



quinta-feira, 5 de março de 2009

Noite





São assim as nossas noites
negras como lençóis de cetim, banhados ao luar,
cheias dum profundo medo do abismo...
mas mergulhando nele.
São negras as perguntas sem resposta
e os fantasmas da tua alma têm o cheiro da terra queimada.

Morro de cada vez que o cetim negro
me desliza na alma
e eu te imagino mais e mais
sem nunca te tocar.

São mágicas estas caravelas, que sulcam o meu mar
sem rumo definido,
batendo de encontro às tuas ondas revoltas
tentando não sossobrar nos escolhos
que teimas em semear.

Mas as nossas noites também são vermelhas,
chamas flamejantes e ardentes de fogo de artifício.
Nelas há palavras na língua voluptuosa da paixão
e eu descubro novas magias
e feitiços de encantamento
que teimo em aplicar.

As nossas noites são lambidas em faúlhas rubras
e morrem acetinadas nos restos negros da lembrança.



Margarida Piloto Garcia




domingo, 1 de março de 2009

Delírio





Esqueço o teu número num copo.
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Tento...tonta, vestir a desnudada incompreensão.
Atravesso a fronteira entre o real e o imaginário.
Esqueço a tua voz que me hipnotiza
rabisco frases idiotas, engulo ácidos de desespero.
Anseio pela tão desejada anestesia.
Esqueço os teus beijos,
suaves, carentes, tímidos.
Devoradores, suculentos, sugando-me a alma.
Embarco num turbilhão de tanta mágoa
giro num carrossel que me nauseia, numa montanha russa de sombras escuras.

Retorço-me na minha carapaça,
insecto inútil e assustado na palma da tua mão!
Esmagas-me devagar com toda a crueldade,
de quem não entende, de quem me teme.

Esqueço a tua escrita correndo-me no sangue,
fluído vital
parte de mim.
Conteúdo da minha amarga consciência
da minha indomável existência!
Esqueço tudo, o antes, o durante e o depois.
Rasgo com olhos vagos o copo...
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
A vida escoa-se em cada gota de álcool, a sangue frio.
Dor pura que nada consegue mitigar.

O ar à minha volta é o abraço que não quero
a vida que não desejo.

Esqueço a percepção do inevitável.
Não consigo evitar o rasgar de entranhas, numa ilógica e fascinante destruição,
diluída num conteúdo inútil de tão ferida.
O copo continua lá
meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Deixo de acreditar que o sol nasceu num novo dia.

O insecto que sou ainda estremece,
tentando lutar num instinto básico e primário.
Mas a dor que tu provocas aperta mais o cerco,
fina, fria, metálica.

Já nem reparo no copo.
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Esqueço-me de viver...


Margarida Piloto Garcia