terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Conhecimento




Sei que tu sabes
desta febre que me devora e suga
deste ácido que brilha em pérolas de suor na minha pele.
A minha mão esculpe o teu corpo
e conhece-lhe recantos escondidos.
Há um aroma vibrante nesse teu cabelo
e uma força macia que se me enrola nos dedos.

Sei que tu sabes
quando os meus olhos se perdem loucos
no abismo dos teus.
Numa espiral magnética
as minhas pestanas dançam húmidas e
desconcertantes coreografias pela tua face.

Sei que tu sabes
deste meu vício de ti
da ânsia do toque apaixonado
dessas mãos a que me submeto.
Em complicadas partituras
mescladas de trombetas e tambores
esta paixão é um cavalo alado
sem rédeas, sem freio, sem destino.
Descubro-te a vida numa lágrima
e a tua voz canta-me rumbas de desejo.
Não sabemos como partir
como quebrar o sonho e seguir.
Em cada dia há um mistério por guardar
e um punhal cá dentro a afundar-se.

Mas eu sei que tu sabes
que eu sou tão real quanto imaginária
e guardo em mim o mistério do amor.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013



domingo, 4 de outubro de 2009

Notas de chuva



As gotas na janela
escorrem ao ritmo dos blues.
São lágrimas pasmadas de amores perdidos
orvalhadas paixões que a tempestade pariu.
Os murmúrios gotejam
um nocturno forjado num piano pagão.
E o vulto move-se, crisálida efémera
dançando mágoas eternas, declamadas, suicidas.
Há no ar um odor metálico
um exaurir de emoções, quais versos de Sylvia Plath.
As gotas de chuva
enchem copos com aroma a vodka
e fazem as lágrimas desenhar caminhos sem retorno.

Ai meu amor,
a chuva na janela tem o canto magoado de um fado de Amália
e eu não sei resistir-lhe.
Por isso, aqui me tens:
um vulto amarrotado desfiando pálidas ilusões
quase ébria de tanta melancolia.

A noite chora em crescente agonia
e eu afogo-me nas gotas da janela.

Margarida Piloto Garcia




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Escuridão



Na imensa escuridão
um fino raio de prata incinera os corpos
e deixa fantasmagóricas runas
escritas em névoas de vagalumes.
No negro profundo
há lábios pálidos e exangues
drenados por vampiros quotidianos
após canibalescas festas do sentir.
Algures por entre as vagas negras
deslizam sentimentos tirânicos
reescrevendo um pretérito cada vez mais imperfeito.

O raio prateado tornou-se feérico
e enche a noite de charcos pálidos.
Ao som de um tango de Gardel
os corpos são silhuetas primitivas
num ballet rítmico e gutural.

Quando a aurora devorar
os últimos resquícios de escuridão
os fantasmas terão partido
e eu ficarei só.


Margarida Piloto Garcia




quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dossel



Hoje quero a minha cama no ocaso.
Drapeados negros no meu sentir
Tons de prata a aflorar-me a pele
e um leve tom rubi com que me cubro.
Quero um leito desnudo, jangada primitiva
que navegue e traga sonhos vividos
mistérios relembrados.
Doce brisa leve e odorífera
sopra no meu corpo, carícia amedrontada.
Descaio a cabeça no doce sono
um Morfeu que esqueci
e esculpe em mim saudades
de arroubos e pele a gritar.
Não quero luares no meu dossel.
Apenas preciso de um veludo azul
de um doce deslizar sem impressões digitais.

Margarida Piloto Garcia -in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013


sábado, 22 de agosto de 2009

Blogagem colectiva de Agosto no "Vou de Colectivo" Carta de amor.



Era uma vez uma carta de amor

Hoje resolvi escrever-te a tal carta de amor que tanto tenho adiado. Não sei se foi o tempo que nunca chegou, se foram as palavras que faltaram, mas hoje pensei escrever-ta ao ver-te ao meu lado num sono pacífico... Certo que não precisavas de ter deixado a roupa toda pelo chão e já sei quem a vai apanhar mas... Dormes e eu deslizo os meus olhos pelo corpo que adoro tactear, sentir meu, cheirar... Bem, não tenho querido dizer mas detesto aquele novo perfume que a tua mãe te deu, mas enfim... Sinto vontade de te acariciar os cabelos, despenteá-los enquanto dormes... Pois, bem sei que não passa de sonho pois tu detestas que te estrague o penteado e eu guardo esse desejo como uma fantasia fechada a sete chaves. Mas olho-te e apetece-me dizer-te palavras doces, apaixonadas, dizer-tas num delicioso jantar à luz das velas em local romântico... É, podia ser assim, mas detestas o cheiro das ditas e jantar fora de casa, bolas e lá vou eu a correr para a cozinha. Mas pronto, as palavras de amor vão ficar para quando estivermos encostados lado a lado, bem aconchegados no sofá... Espero bem que não tenhas deixado por lá o jornal e não te apeteça fazer um zapping louco numa procura de não sei o quê!
Não sei bem como, mas as palavras seguiram outro rumo à medida que te ia escrevendo. Acho que ainda não estou pronta para a tal carta de amor, ou de raiva, já não sei bem. Este é mais um rascunho deitado no cesto dos papéis, o embrião de algo adiado.
Juro que queria muito escrever essa tal carta de amor, mas já não sei fazê-lo ou talvez, quem sabe, a vida tirou-me o jeito. Também, para que queria eu escrevê-la se tu detestas ler.

Margarida Piloto Garcia


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vício





Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada.
Que não saiba a café
ou a desamores.
Que não transborde paixão
para dentro da minha boca exangue
e não diga frases molhadas.
Não quero um beijo rubro
carregado de ânsias febris,
um almiscarado ósculo
com um currículo de mágoas, de paixões
de raivas tracejadas.
Quero um beijo meu.
Não sei se é cândido, se devasso
mas traz em si um rótulo diabólico
um carimbo que não passa de prazo
uma tatuagem que morde e infecta.
Bebo nesse meu beijo a saliva de outro
o despudor da alma desnuda
o vício de largar na boca
inconsequentes devaneios.
Nos meus lábios sinto quebrantos
e orgias seladas com lacre.
Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada
que não seja de ninguém.

Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Boneca partida



Definitivamente há que pedir desculpa aos que acreditaram e investiram. Não que o seu ser seja feito de enganos, apenas de medos .Esse medo escuro que não tem cura, o fruto de uma pressão de que não sabe o início. Esse medo trava-lhe os passos, joga-a no chão, impede-lhe o sentir. E dentro tudo galopa furiosamente, devorando. Não pode mais calar que há que pedir desculpa aos que sonharam. Que mais fazer? Não sabe se algo se partiu no mecanismo original, talvez um defeito de fabrico que a impede de dizer...Quero! Querer ela até quer e até diz. Mas os passos a dar não são possíveis para a sua quadriplégica alma. Algo falhou, algo lhe corroeu o ânimo, a força. O monstro aterrador que sempre lhe assombrou as noites afinal existia. Não vale a pena esconder mais. Há que deitar a cabeça no cepo para que o carrasco a cale de uma só vez, sem delongas, sem demoras. No meio da dor intensa não vai dar por nada.

Margarida Piloto Garcia


Foto de Yvone Gort



sábado, 8 de agosto de 2009

Caminho




Ao lamento incessante
junto a palavra dura.
Verto a lágrima polida
de tantas arestas limadas.
E sigo.
Quero saltar o abismo
como se o amanhã não existisse.
Não construo pontes
Não enleio lianas
Não sei tirar as asas
aos pássaros de cor deste meu leito.
À melopeia dolorida
junto um cântico de bravura
passos batendo ao rufar dos tambores.
E sigo.

Margarida Piloto Garcia




terça-feira, 28 de julho de 2009

Crepúsculo



Deixa que a noite caia.
Sem pôr de sol ensanguentado
Sem brisas de promessas
Sem velas acesas
sombreando as paredes com chicotadas ébrias.
Deixa que a noite caia
e devagar se aniche nos corações aflitos.
Os pensamentos esfomeados
roem por dentro a vida
e tudo o que pintaste numa tela virgem
são borrões demoníacos
traços rasgados e sem sentido.
A ferida que vais talhando em ti
não pode ser fechada
e dela escorre a vida a pouco e pouco.
Deixa que a noite caia.
Encosta a cabeça na parede nua
e saboreia o último suor.
Já não sabes construir mais pontes
para esse castelo inexpugnável.
Cada segundo é uma bala
alojada bem fundo num corpo partido
sem amanhãs que o consertem.
Portanto não esperes
e solta as amarras que gemendo
prendem a vida numa tosca sátira.
Não vivas sonhos gastos
que o amanhã nunca trará.
E porque a luz do dia te assassina
com a raiva da ilusão
fecha os olhos vazios e apenas
deixa que a noite caia.

Margarida Piloto Garcia in- PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013

Foto de Alofredo Ventura de Sousa







quarta-feira, 22 de julho de 2009

Desencontros



Jogo os desencontros
nas marés revoltas
tsunamis de querer.
Num simples batel
a minha alma rema inebriada
e eu nem ouço
as chicotadas duma voz que grita.
É triste o dealbar deste sol
que se transmuta e fere de morte
os escolhos de uma praia.
Os desencontros são cicuta
gotejada pouco a pouco.
À raiva acutilante
desse mar revolto
responde a calmaria de um céu sem estrelas
de um deserto de sentires.
Exausta, encalho na praia
onde me espera a solidão.
Mas não me importo!
Sou um Crusoe que só deseja
que os desencontros morram na última maré.


Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sorriso




Dás-me um sorriso azul, feito de um mundo deslumbrante que não houve, carente de afectos e ternuras.As crianças têm esse sorriso, mas o teu, parece ainda mais ingénuo e esconde uma tristeza que se entranha e nos atrai como uma lua pálida.
Todas as noites escorrego de mansinho pela tua cama, abraço o teu corpo e sinto-o meu.Mas não descerro os olhos para não me aperceber da tua ausência.Que força me empurra, que poder me esmaga, a ponto da falta de uma palavra tua, ser a privação do ar que respiro?Tento varrer fantasmas para arranjar espaço para me emprestares os teus, e sigo murmurando ladaínhas.
Dás-me um sorriso azul e eu vergo, alquebro, bamboleando palavras cegas.


Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013



Pintura de Richard Burlet





domingo, 12 de julho de 2009

Anjo





Esqueço-te nas noites negras.
Porque o ar que respiro
é fruto do teu beijo
Porque o teu beijo é vermelho
e traça marés na minha pele
Porque a minha pele ferve desejos
quando abres as asas da ilusão.
Esqueço-te nas noites negras.
Negras para não ver
Negras para não sentir.
Traço rumos à vida
quando tu abres essas asas de anjo
e fujo dessa sombra
cruzando labirintos de fascínio.
Quando me cegas
colo as minhas mãos nas tuas margens
e vivo os dias em tácteis cicatrizes.
Depois...
Esqueço-te nas noites negras.

Margarida Piloto Garciain NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013


Web-art de Yolanda Botelho






domingo, 5 de julho de 2009

Palavras ao sol poente



Pendurei as palavras no estendal
bandeiras brancas desfraldadas
sob um sol maduro.
As gaivotas grasnaram ao longe
e os pássaros trinaram por cima das palavras.
Ao sol poente, os brancos
ganharam laivos sangrentos
e as palavras destilaram ódios e paixões.
Atenta ao vento quente
dum qualquer mês ensolarado
vigiei as palavras para que não fugissem
ou me fossem roubadas.
Porque há que as cuidar sem feri-las de morte.
Não deixar os lençóis de palavras
crestar violentamente
ou encarquilhar em chuvas de lágrimas.
As minhas são açoitadas no estendal
pela maresia do oceano vizinho.
Levanto-me da cadeira onde balanço os sonhos
e vigio as palavras.
Aqui e ali, estremeço quando o vento norte
me tenta rasgar as mais vivas
as que se tornaram em cores de sentimentos.
Entro em casa abrindo a porta da ilusão.
As ideias correm na minha frente
e fazem-me tocar nos lençóis de palavras.
Acaricio todo o estendal
e antes do anoitecer
embrulho-me rodopiando
nos mares multicolores de palavras.


Margarida Piloto Garcia

Foto de maz Gun




quinta-feira, 2 de julho de 2009

Trilho



Abro uma porta
e espreito.
Que longo é o caminho a percorrer!
Estendo um tapete de mágoas
e tento caminhar.
O sonho é sempre delirante.
Na realidade
encontro-me apenas
parada
à espera.

Margarida Piloto Garcia


sábado, 27 de junho de 2009

Noites de Grieg



Grieg soa vitorioso nos meus ouvidos.
Transborda-me a alma
revolve-me entranhas
esfiapa-me a vida em lençóis de desespero.
Noites de Grieg são catarses que deixam cicatrizes.
Vampirizam-me a mente
esqualos predatórios.
Adormeço em mares azuis
mas sou devorada por sombras cinzentas.
O meu íntimo é um vendaval vivido e não domado.
Paira à minha volta uma teia de aranha.
Vislumbro-a num doce emaranhado
tecido em pálidos sonhos antigos.
Não me abusa nem me atemoriza esse silêncio.
Traz-me a paz e a eficiência das aranhas
um mergulhar em mim
uma felicidade fetal, verdadeiro watsu.
Mas abandono o esconderijo silencioso
e deixo a alma desnudar-se aos sons.
Grieg arrebata-me numa paixão sem fim.

Margarida Piloto Garcia in POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013







terça-feira, 23 de junho de 2009

Pintura





Pinto o beijo na face cor de lua
e traço em pinceladas
as margens do teu corpo.
Caminhos que as minhas mãos desvendam
debitam cor de rosa e carmim.
Fraseio nos teus lábios sussurros desmedidos
e enlaço e entrelaço
as linhas que nos unem.
Os gritos que não calo
explodem-me na pele em rubras cores.
Cruza os meus olhos esse fogo dos teus.
Mas somos náufragos de um amor perdido
pintura de Monet em tarde cálida.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013

Quadro de Claude Monet





quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desejos



Raro é o desejo que ao ser satisfeito não te deixa marcas a ferro e fogo. E depois, para quê esperar com denodada ansiedade a meta escolhida, a visão que te assombra as noites e te devora os dias? Tal como numa viagem, enches o teu eu de quimeras, de expectativas, de sonhos para fruir e saborear. O teu sangue estremece, a tua alma é um pardal saltitante, o teu sangue pulsa a cada batida de espera do teu coração. E depois? Há momentos empolgantes que te desenham tatuagens líricas e há as mágoas e as decepções que te esculpem por dentro a sangue frio. E à medida que a viagem se aproxima do fim, começas a sentir o nó da privação, do retorno a velhos males e a páginas por colorir. Assim são os desejos satisfeitos, a morte dos sonhos, a esponja do quotidiano. E no entanto levamo-los connosco, acolhemo-los dentro de nós, numa ânsia constante, num quase vício de que não nos desprendemos.
Desejos e sonhos são traços de nós.

Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 10 de junho de 2009

E.T



Soergue a mão e deixa lentamente escorrer areia por entre os dedos.
Contando cada grão, uns mais escuros, outros mais brilhantes, xistosos, ela mede cada segundo de vida e deixa-os cair e desaparecer lentamente, numa chuva miudinha e dispersa.
Com os segundos passando, num tempo que não se detém, conta os grãos, e a memória regressa a uma praia onde as mães cuidam dos filhos, onde os toldos enfunam ao vento.
Há velhos bancos de madeira com pequenos orifícios pelos quais a areia escorre para formar castelos.
Os castelos são de areia tal como os sonhos, mas ela ainda não sabe e sonha.
Os sonhos são de menina mas contêm o germe de todos os sonhos.
E o pensamento é livre e escorre, tão palpável mas tão etéreo como a areia que agora lhe escorrega por entre os dedos.
Devagar, devagarinho, ela descalça-se como no strip mais intimista e mergulha lentamente os dedos dos pés na areia fresca da madrugada, macia como uma virgem por desflorar.
A sensação de que se recorda ano após ano, regressa num impacto súbito.
É sempre a mesma!
Os grãos que escorrem da mão, são o anti-clímax da profunda e sensual sensação de puro deleite, enquanto deixa os pés escorregarem e enterrarem-se profundamente na seda fria do areal.
Um sorriso transcende-lhe as comissuras dos lábios e retira-lhe o ricto um pouco amargo de acumulados desalentos.
E à medida que a pele aprofunda as sensações, ela sente cada poro aspirar o aroma pungente da brisa marinha.
São tantas as emoções que a percorrem, que já não sabe exactamente onde começa e onde acaba a paixão e a volúpia dos grãos de areia fria da alvorada.
Saboreia o momento, numa vibração quase orgásmica que não precisa de parceiro, porque existe dentro de si
.Ela sabe que o momento é breve tal como a realidade, porque o sol vai aquecer a areia fria e os sonhos têm de ser recolhidos muito fundo.
Fundo, tão fundo que às vezes se esquece de sonhar e é nessa altura que o travo metálico de uma morte anunciada a faz vacilar.
O momento aproxima-se e a dor fá-la retrair-se numa estátua.
Tenta desesperadamente agarrar o último resquício da sensação que não quer perder, da emoção que não quer largar, da paixão que não quer deixar arrebatar do corpo, da alma, de todo o seu pensamento.
Agarra com força o último punhado de areia e cerra-o na mão fechada.
Nas costas da pequena mão que lhe recorda a criança de outrora, uma veia azul serpenteia como o caudal de um rio.
Segue o rio, navega nele olhando-o com duplicidade da margem e, pouco a pouco, muito lentamente, à medida que o sol se torna mais intenso, abre lentamente a mão fechada e deixa os últimos grãos de areia cairem, já mortos, pisados e húmidos, junto dos seus pés.
A névoa dissipou-se.
Quando levanta a cabeça das mãos, as paredes do quarto encerram-lhe o corpo e a vida.
Os olhos seguem a luz que entra pela janela.
A média distância erguem-se mais paredes, mais janelas, num cenário de um qualquer planeta que não é o seu.
Recolhe à posição fetal.


Margarida Piloto Garcia


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Memória




Naquele dia
reinventaste a vida.
Com que magia me feriste?
Os teus olhos eram brasas ardentes
e eu queimei nesse ardor.
Falaste a língua primitiva
dos homens e mulheres que amam.
Horas e horas que pareceram
apenas um relâmpago.
Vibrações e cicios
correram entre nós,
lampejos cintilantes e febris.
No teu sorriso brilhava
a sofreguidão de um beijo
e novamente a língua dos amantes
movia-se entre nós mas sem se ouvir.
Na pele palpitante
corriam rios de desejo
e o corpo sussurrava.
Naquele dia
a loucura implodiu em nós.
Tudo se subverteu e se moldou
num hino a algo louco e belo.
O branco era mais branco
reluzente e chamativo,
tal como a blusa que me emoldurava
e onde tombavam feridos um ou dois caracóis.
O ar carregava de estática
os corpos flexíveis.
Algures em meu redor
as cores viravam magenta
com um toque de cinabre.
Naquele dia
os deuses enlouqueceram
e nós, simples mortais,
não passámos de barro
moldado caprichosamente.
Não havia barreiras
fronteiras
algemas entre nós.
O beijo fez
os corpos embaterem
fundiram-nos.
Foi sôfrego, voraz,
canibalesco.
Transformou-nos em tochas a arder
em fogo de artifício inconsequente.
Tudo era atávico
tão primitivo como o primeiro homem.
Naquele dia renascemos
fomos cometas, supernovas, buracos negros.
Embriagados num turbilhão
ascendemos a alturas nunca imaginadas.
Fomos lava ardente
oásis num deserto
arcanjos de asas negras.
Nada nos afastava
na atracção magnética.

Naquele dia quando tu partiste
levaste-me colada à tua pele.



Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 28 de maio de 2009

Véu




Grinaldas de flores
compoem-lhe o cabelo.
São rosas com cheiro
que a deleitam e a fazem sentir ausente.
Sente o corpo apertado,
num vestido branco imaculado
que lhe contrasta a pele morena.
É um segundo EU,
uma estrutura flutuante,
cheia de visões de mais e de loucuras.
Vê-se no espelho.Uma jovem pura de olhos brilhantes,
pairando em rendas de Calais,
em estruturas antigas de outro século.
O cabelo longo foi armado,
canudos de desejo, pendentes formados
valorizando-lhe a boca carnuda que adora o beijo arrebatado.
Algures em si a realidade feneceu de louca.
Ela não quer saber, embora mais tarde nesse dia
prove amargamente o cálice que a espera.
Mas agora, apenas se enrola
e orgásmicamente se estende
no véu que junca o quarto.

Margarida Piloto Garcia


terça-feira, 26 de maio de 2009

Vidro sem luz



Como são os pássaros que trinam em manhãs orvalhadas?
O ar é quente
Cheio de odores inebriantes, aveludados
sensações fortes que embriagam.
O que são flores?
Os cheiros capitosos penetram-no profundamente
enquanto acaricia a relva ondulante
macia, vibrante
de uma sensualidade que lhe desperta o corpo.
O que é verde, castanho, azul?
Como é um arco-íris?
O sol faz-lhe chegar aos lábios húmidos
a primeira gota de suor, sal do seu ser.
O sol que o cativa e estremece
a lua que lhe traz a languidez das noites caprichosas.
Estrelas...
Como são as estrelas de que falam as canções de amor?
Tanta coisa que sente e o faz despertar.
Sentimentos que lhe trazem vida
saboreando cada dia novas descobertas.
As mãos afagam com carinho o meigo animal que o acompanha.
Sabe-lhe bem esse contacto que lhe acalenta a alma.
Ergue-se lentamente enquanto abraça a vida
sorrindo das grandes maravilhas guardadas dia a dia.
Caminha numa passada lenta, saboreada e cautelosa.
Um contentamento mudo
molda-lhe os lábios sequiosos dos dias que correm
das noites que passam
dos mistérios insondáveis de um vasto universo.
Como são as pessoas que por ele passam?
Como são os seus olhos opacos como vidro sem luz?


Margarida Piloto Garcia



domingo, 17 de maio de 2009

Toque sentido




Estende a tua mão e sente-me.
Ignora o supérfluo...atinge o desejado.
Desvenda os mistérios escondidos, decifra cada cicatriz,
cada poro, cada traço.

Estende a tua mão e toca-me.
Os teus dedos são sensações de loucura,
plenos de desejos camuflados, escritos, devorados, assumidos.

Estende a tua mão e não digas que nunca te senti!

Os olhos descobrem a alma
a boca sensualiza o desejo.
E o toque dessa mão é tão subtil e apaixonado!

Percorre-me o vento da loucura.
Ardem em mim fogueiras milenares.

Estende a tua mão e mergulha nos meus sonhos,
sente a minha realidade,
engole a minha alma,
possui a minha carne e o meu eu.

Estende a tua mão e sê quem sou.
Percebe como amo e como quero,
até ao fim, sem soluções, sem trâmites.
Paixão pura, desejo insondável, réplica de terramoto emocional.

Estende a tua mão e ama.
Não te prendas com o que te rodeia,
não me troques pelas imagens do mundo apocalíptico.

Existo em ti, no teu sonho e na tua realidade.
Preciso da tua rendição, do teu suspiro sussurrado.

Vês o infinito nos meus olhos?
Sentes o imaginário na minha pele?
Receias a sensualidade dos meus beijos?

Estende a tua mão e sonha.
Apareço-te na névoa da lembrança...mas quero-te.
Nuvens, sonhos, fantasias, nada são.
Querer é mais.
Querer é ter.
Querer é possuir e sentir o objecto de desejo.

Estende a tua mão e descobre-me!

Margarida Piloto Garcia



domingo, 10 de maio de 2009

MÃE




Mãe

São dos meus verdes anos as primeiras lembranças de uma mãe sorridente, com alegria de viver, cantar, dançar e rir.Uma mãe com uma saia dos anos 50, belíssima no seu estampado de chapéus de sol amarelos em fundo preto.Ainda existe esse tecido guardado como precioso tesouro.Era uma mãe que me levava todos os anos, a descobrir a Feira do Livro, na altura na Av.da Liberdade em Lisboa, e onde eu me deliciava numa quase intoxicação literária.Começava o amor aos livros, pelos quais sempre nutri verdadeira paixão.Esses passeios, fazia-os com ela nas minhas idas à ginástica
do meu grande Sporting, onde tantos e tão belos anos passei.
Em breves imagens surge-me a minha vassourinha de brincar que um dia serviu de palmatória e o meu Migalhinhas, um pombo trazido de uma quinta e que um dia virou estufado sem eu dar por isso, e por arrasto lembro os seus petiscos e o afã que punha na noite de Natal, em compor os presentes que tornavam o dia 25 inolvidável.São memórias soltas precedidas por um sorriso.









Esse sorriso deu lugar a um olhar morto e vazio trazido pela doença, que já no fim da minha adolescência me mirava na espera de um fim precoce.
Mas mãe não há só uma e eu tive a sorte de ter tido duas.A minha tia-madrinha que vivia connosco e para quem fui a filha nunca tida, era a minha companheira por excelência.Enfermeira de profissão, levava-me com ela para um mundo que me encantava e desde as receitas inventadas às "experiências" químicas feitas com água, tinta e tanto frasquinho, ia todo um manancial onírico.Corríamos os jardins e os monumentos em maravilhosas descobertas.Nos campos perto de casa eu arquitectava histórias enquanto colhia flores e ia roendo azedas.Com ela descobri o teatro do qual fiquei eterna amante.Como era delicioso o Carnaval em que eu escolhia a máscara e partia com ela para as brincadeiras.Mais tarde vivíamos contos de fadas nos cinemas da capital e na minha adolescência descobria comigo o cinema de culto.No Verão a escolha de tecidos para a confecção de vestidos na modista, que o pronto a vestir estava no começo, era um manancial de vibrações como se escolhesse uma jóia no Tiffany's.Foi ela quem me abriu os olhos quando passei de menina a mulher e me seguiu por tantos lados, fazendo dos meus filhos, seus sobrinhos e seus netos.A saudade deixada foi enorme, como enorme era o seu amor.
Mães não são só as que parem.Mães são todas as que amam.








terça-feira, 5 de maio de 2009

Palavras




De palavras construí a minha estrada
de sonhos galopantes roubados à vida
sonegados na ponta de uma espada.
As palavras brilharam nos meus dedos
roendo bolores
polindo as feridas
enchendo de marés a minha alma.
Com palavras ungi o verbo amar
e rasguei as sedas do meu leito.
Algures por entre sonhos
as palavras são Pedra de Roseta
envolta em areia do deserto.
Sou uma nómada de sentimentos
à procura de oásis
onde sacie a sede dos desejos.
Levo colados
despojos de uma guerra eternamente travada.
Sigo qual tuareg
os áridos caminhos
que o maná das palavras
nem sempre pode atenuar.
Mas não encontro paz.
Sou apenas uma Xerazade
para quem as mil e uma noites
se esgotaram.


Margarida Piloto Garcia



terça-feira, 28 de abril de 2009

Atreve-te




Atreve-te.
Pisa os recalcamentos da mente original.
Origina ciclones de demência.
Alarga o horizonte até que o ultrapasses.
Parte para as estrelas e explode em supernova.
Não há maior abismo que o que crias, sentes, manipulas.
Se te arrependes...pensa.
Deixa que a água te escorra em gotas orvalhadas.
Prende-as nos lábios, saboreia.
Devagar, devagarinho, leva à loucura a mente paralela e suplicante.
Deixa jazer aos pés a vontade submissa.
Procura o ritmo que te faz planger em notas discordantes.
Sonda a magia das coisas proibidas, nunca ofuscadas,
diamantes negros avassaladores.
Sente o pedido na tua alma primitiva
e liberta o fogo dos infernos.
Nem anjos nem demónios poderão defrontar a guerreira que és.
Exige o tributo à tua condição.
Se pedes, vais obter a vida negada,
as mentiras embrulhadas em papel de seda,
as promessas como berlindes coloridos.
O que te ensinam a querer são cachos de uvas maduras,
suculentos ao sol orgíaco do poente, colhidos no suor de corpos e alentos.
Por isso perde-te e encontra a rota dos desejos.
Desliza na noite negra de cetim, esmaga a teus pés a doçura febril e ávida mas fresca.
Renega as histórias de encantar e prova a exótica iguaria.
Exige, manda, quer.
Atreve-te.

Margarida Piloto Garcia


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Volúpia





Olho-me, feiticeira
num espelho ondulante
descortinando largos caracóis.
Os teus braços cercam-me
e a tua boca no meu pescoço
desperta o desejo ensolarado.
Sinto na minha pele
as tuas impressões digitais
linhas que me dançam no corpo.
A tua mão percorre este meu rosto
de modo a decorá-lo.
Os teus olhos penetram-me na alma
e o som da tua voz
morde-me em labaredas cintilantes.
Todo esse suor que cola o teu corpo ao meu
é um bálsamo que sara as nossas feridas.
O teu riso é um soluço no meu peito
e eu tento beber as tuas lágrimas
com os meus lábios sôfregos.
Não sei explicar o frenesim
a loucura partilhada.
As nossas mãos são marionetas
que o amor comanda.
Já aprenderam os segredos todos
e os porquês de sermos nós.
Gosto de fazer as minhas dançar no teu cabelo
e pintar de sombras o teu corpo.
Há melodias tecidas entre nós
ritmos de um ballet
ora místico, ora carnal.
Pinto nas paredes telas flamejantes
oníricos poemas a deuses ancestrais.

E depois, perdemo-nos sempre
para nos voltarmos a encontrar.
Rimos dentro das bocas
dentro dos corpos
dentro da vida.
Rimos porque sabemos
que um dia a vida nos fará chorar.




Margarida Piloto Garcia


Obra de Elieni Tenório





domingo, 19 de abril de 2009

Viagem





A mão que se estende
em muda súplica
foge à compreensão de quem tu és.
Fecha os olhos
não te escuta
nem te quer entender.
Tu és sómente deusa de ti mesma
e tudo sacrificas
em mítico altar.
Partes só
e só regressas
viajante incansável
de um sonho infinito.


Margarida Piloto Garcia





segunda-feira, 13 de abril de 2009

Requiem




Ele disse que sim.
Ela disse também.
Apenas um jogo
um erotismo subtil
fugindo à rotina, às frustrações.
Eles sentiram pele, carícia, beijo.
Amaram-se na obscuridade dos desejos
e ele disse que não
nada de amarras, paixões.
Ela disse também.
Ela mentiu.
O coração rebentava
pulava, os olhos coruscantes
a boca tremida, a pele palpitante.
Mas ela disse que não.
Dias depois
ele disse que sim.
Ela disse rasgando a couraça, que sim e sim também.
Ele não soube explicar
que o jogo falhara
que a paixão dominava e o feria.
Amaram-se sempre em vagas alterosas
e trocaram ternuras, anseios e receios.
Confessaram-se no altar sagrado
da chama que os unia.
Não eram beijos
porque uma boca só
já os unia
e em corpos suados ele cantava-lhe
êxtases sem conta.
Mais tarde
Ele disse que sim.
Ela disse também.
Rugiram gravemente os pensamentos
do...e agora?
Deveriam fugir. largar as mãos
perder o tesouro encontrado?
Mas eram um só e as lágrimas rolavam.
E o amor fê-los desaparecer
numa espiral hipnótica
que domou o tempo.
Perdidos noutra dimensão
os corpos suados, amados,
lambidos, amassados,
as loucuras perpretadas e vividas
sem sombras de futuro inexistente.
Raios filtrados na janela
tornavam-na mais bela.
O cheiro da pele dela, brilhava
no tónus da pele dele.
E os olhos brocavam o peito sem piedade
e o amor era uma bigorna martelada.
Um dia ele disse que não.
Ela disse talvez, na sombra do engano.
Ele seguiu em frente.
Ela virou para trás.
A paixão e o amor foram guardados
no baú do nunca e enterrados.
Os nãos e os sims
o jogo viciado
foram coroa de flores em campa rasa.
Sobraram de mãos dadas dois fantasmas
que se amam sobre ela
em noites de lua cheia.


Margarida Piloto Garcia



segunda-feira, 6 de abril de 2009

Epitáfio





Sobre o caixão dos sonhos
deitas simples flores.
Em breve a campa será rasa
e tudo apodrecerá na escuridão.
O meu fantasma
afoga-se em lágrimas sangrentas
pintadas em quadros de Pollock
cantadas em melodias de Caruso
e adormecidas nas palavras de Andion.
Conto cada ruga ao pormenor
cada ano passado
cada minuto vivido.
O sol, há muito que se pôs neste horizonte,
onde dancei tangos no cemitério da vida.

O meu querer não tem fim
mas as palavras são cruzes
e os sentimentos afundam-se no pranto.
Não sei se as coisas têm um porquê
mas hoje, sou apenas um anjo caído
uma borboleta sem asas.

É funda e negra
esta cova sem pedra tumular.


Margarida Piloto Garcia





sábado, 4 de abril de 2009

Mais a norte





Numa qualquer praça
beijo leves raios de sol.
Espreitam sorrisos ténues
filtrados por líquido ambarino.
Tento descortinar pensamentos
rotinas vagas
trejeitos e meneios.
Parecem-me distantes
os humanos presentes,
produtos de uma outra galáxia.
Numa qualquer praça
alinho pensamentos
e deixo as linhas escorrerem no papel.
Sinto-me bem
de alma liberta
enquanto os olhos saltitam
nas bebidas das mesas,
nas frases soltas,
no corre-corre das gentes açodadas.
Algures no passado
deixei as dores arrumadas
e o pensamento é agora um bálsamo
leve e saboroso,
dois dedos de espuma
gota escorrendo
húmida ao tacto.
Os odores de uma vida
acariciam-me inusitadamente
num dia, numa tarde
numa qualquer praça.



Margarida Piloto Garcia








sábado, 28 de março de 2009

Abismo





O nulo absoluto
oprime e exige.
Quando te apercebes...
já nada tens.
As imagens surgem-te desfocadas.
As letras são corropios em veloz retirada.
E restam-te sonhos idiotas.
Descobres-te na ridícula paisagem
do faz de conta.
Prometes não voltar.
Mas voltas, vezes sem conta.
Rejeitas o que te oferecem,
pela procura da negra perdição.
Afundas os sonhos.
Mergulhas na maldição.
Tudo o que és de bom é subvertido.
Perversamente aceitas que já nada te resta.
Desejas o vórtice da loucura,
as algemas que te rasgam a carne
desde que do outro lado a vida exulte.
Os teus desejos são intransponíveis,
transitam num vislumbre
pelo negrume dos outros.
E as horas passam
desfilam anorécticas em sedas transparentes.
O teu relógio morde-te, fere-te,
dilacera-te em pedaços a espera.
E não tens dúvidas...
de que tens um abismo no lugar da alma.



Margarida Piloto Garcia








quarta-feira, 18 de março de 2009

Perdão






Perdoa-me
se não te soube amar.
Jazias informe e exangue
num cativeiro há muito acomodado.
Abri-te as portas da prisão
e mostrei-te o mundo da magia.
Inventei histórias de encantar
artes de mulher tornada
Xerazade.
Dei-te a vislumbrar o paraíso
e convenci-me duma
felicidade incerta.
Provei da tua boca o mel
das palavras há muito esquecidas.
Desenhei-te na pele
uma marca invisível
que agora te arde e te magoa.
Mostrei-te horizontes de partilhas
em vastos areais.

Nos mistérios desenhados num ecrã,
a matéria explodia louca,
inusitada
pinturas luxuriantes em paleta de mestre.
Transformei desastres
em façanhas,
brinquei de faz de conta para te ver sorrir.

Algures lá fora a vida
continuava cruel como costuma ser,
alheia aos devaneios de um romance.

Perdoa-me se não te soube amar
se te calei a voz
se te cortei as asas
se fiz da tua vida algo vazia
o tormento de um coração cheio.
Desculpa-me
as migalhas preciosas
com que teimo afagar-te
e dar-te alento.
Mas há coisas que a minha
alma rejeita,
grilhetas que eu não ouso
ora quebrar
ora trocar por novas.
Quero ser livre
como o pensamento
e expurgar de mim
todas as dores.

Perdoa-me
se não te soube amar
mas o meu coração
é apenas uma bola de cristal
que eu não sei desvendar.



Margarida Piloto Garcia


tela de Francis Picabia



quinta-feira, 5 de março de 2009

Noite





São assim as nossas noites
negras como lençóis de cetim, banhados ao luar,
cheias dum profundo medo do abismo...
mas mergulhando nele.
São negras as perguntas sem resposta
e os fantasmas da tua alma têm o cheiro da terra queimada.

Morro de cada vez que o cetim negro
me desliza na alma
e eu te imagino mais e mais
sem nunca te tocar.

São mágicas estas caravelas, que sulcam o meu mar
sem rumo definido,
batendo de encontro às tuas ondas revoltas
tentando não sossobrar nos escolhos
que teimas em semear.

Mas as nossas noites também são vermelhas,
chamas flamejantes e ardentes de fogo de artifício.
Nelas há palavras na língua voluptuosa da paixão
e eu descubro novas magias
e feitiços de encantamento
que teimo em aplicar.

As nossas noites são lambidas em faúlhas rubras
e morrem acetinadas nos restos negros da lembrança.



Margarida Piloto Garcia




domingo, 1 de março de 2009

Delírio





Esqueço o teu número num copo.
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Tento...tonta, vestir a desnudada incompreensão.
Atravesso a fronteira entre o real e o imaginário.
Esqueço a tua voz que me hipnotiza
rabisco frases idiotas, engulo ácidos de desespero.
Anseio pela tão desejada anestesia.
Esqueço os teus beijos,
suaves, carentes, tímidos.
Devoradores, suculentos, sugando-me a alma.
Embarco num turbilhão de tanta mágoa
giro num carrossel que me nauseia, numa montanha russa de sombras escuras.

Retorço-me na minha carapaça,
insecto inútil e assustado na palma da tua mão!
Esmagas-me devagar com toda a crueldade,
de quem não entende, de quem me teme.

Esqueço a tua escrita correndo-me no sangue,
fluído vital
parte de mim.
Conteúdo da minha amarga consciência
da minha indomável existência!
Esqueço tudo, o antes, o durante e o depois.
Rasgo com olhos vagos o copo...
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
A vida escoa-se em cada gota de álcool, a sangue frio.
Dor pura que nada consegue mitigar.

O ar à minha volta é o abraço que não quero
a vida que não desejo.

Esqueço a percepção do inevitável.
Não consigo evitar o rasgar de entranhas, numa ilógica e fascinante destruição,
diluída num conteúdo inútil de tão ferida.
O copo continua lá
meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Deixo de acreditar que o sol nasceu num novo dia.

O insecto que sou ainda estremece,
tentando lutar num instinto básico e primário.
Mas a dor que tu provocas aperta mais o cerco,
fina, fria, metálica.

Já nem reparo no copo.
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Esqueço-me de viver...


Margarida Piloto Garcia



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Deixa




Deixa.
Não te espero mais.
Larguei as fímbrias de mim mesma na calçada
despojos de um EU enlouquecido.

Calcorreei-as tanto numa luta insana!
Busca desenfreada de fiapos,
névoas de letárgicos entardeceres.

Salpico as paredes de palavras,
soltas
despojadas de vida.

Lambendo-me em labaredas,
sufoco no gemido desse querer,
que transformas em água cintilante.

Deixa
deixa mesmo de tentar explicar.
Danças esse teu orgulho nos sussurros do meu corpo.
Moldas-me a alma
com palavras afiadas e esgrimidas.
Tropeço nas tuas pedras, polidas como a calçada.

Ferem-me todos esses requebros de mentira.

A cama em que me deito,
magoa a minha vida.
Quero feri-la como os gestos com que danço,
mas voo em ziguezagues...estropiada.
A ferida aberta não se cala mais.
E o grito deixa livre este meu eu.
Crucificada em êxtase, mas exposta ao vento,
liberdade drogada em esquecimento.

Ignoras o meu rosto...
E eu cruzo assustada mais um dia.

Desespero a espera e rasgo sem pudor as minhas horas.
Mas é inevitável a escolha desgarrada.
A gota do orvalho não vai molhar os lábios numa qualquer manhã.

Por isso...
Deixa lá.
Deixa.

Margarida Piloto Garcia


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Doce selvagem





Trazes o sol a acompanhar-te o rasto
os tons púrpura e laranja escondem-te o rosto.
O meu coração estremece correndo...
chita na savana imensa.
Chega-me o teu odor, mistura da selva, das crianças,
eivado do perfume que é só teu e se me entranha na pele.
Trazes o sorriso dos angustiados
e o cansaço de não conseguir mais.

Hoje não estive contigo, a mão cerrada na tua.
Mal tive tempo para um beijo fugaz, roçando os lábios.
Mas agora, na noite quente e plena de ruídos sussurrantes,
tu surges como o anjo alado que esperei todo o dia.
Esperaram outras mulheres,
cada coração na prece aprendida ou imaginada.
Caio nos teus braços e o beijo agora é mais profundo,
mais quente que a noite doce e melodiosa.

Comes
conversas
planeias.
Sorris no calor das fogueiras acesas e atiçadas.
Danças comigo até que os corpos ardam de prazer.
Os sons batucados tornam-se vorazes.
Recolhemos ao refúgio só nosso.
Contas em voz cansada mas profunda as lágrimas do dia.
Eu relato-te as minhas.
Banho-te delicadamente por entre suspiros e abraços,
molhando-me a roupa num frenesim que exige mais.

Quando a aurora chegar teremos toda a noite sido UM
almas e corpos fundidos na vida que cala, grita e estremece,
não mais deixando de nos presentear com o milagre



Margarida Piloto Garcia




terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sonata no areal






Ela move devagar cada partícula,cada grão de areia

que lhe acaricia a pele.

Suave e fresca a areia fina e fria do despertar matinal

provoca-lhe sensações dispersas,

acordando-a para a realidade de um novo dia.

No entanto ela não deseja acordar.

Fecha os olhos e inspira a maresia sensual

que o ar evola de cada onda.

Pela cabeça passam-lhe

todas as imagens lúdicas e intensamente vividas

de instantes mágicos e inebriantes.

O corpo acaricia novamente a areia.

Deixa uma poalha escorrer entre os dedos finos.

Mãos e pés, extremidades sensitivas

apoderam-se de cada pequeno e ínfimo pormenor

da carícia.

É uma frescura inusitada, uma paixão moldada

pelo encontro entre o frio de cada grão de areia

e o suave calor da sua pele.

Nada mais importa no momento

a não ser

esse desvirginar do areal

no primeiro toque de um novo amor

num novo ciclo primaveril.

Abre os olhos

consciente de que é a única na praia deserta.

Neste momento nada existe do quotidiano

buliçoso e barulhento.

As notas do dia a dia foram apagadas

pela hora matinal e pelo seu casulo

povoado de sonhos.

Um leve sorriso paira-lhe nos lábios.

Sorri de si mesma, da sua vida. das memórias, dos desejos.

Aos poucos o sorriso morre-lhe nos lábios.

Porque os lábios desejam

e a fome dos desejos é em si mesma devoradora.

Tenta não pensar

e deixa que o mar a absorva e de certo modo

a subjugue.

O grasnido de uma gaivota

percorre-a de repente e desperta-a para o mundo.

O corpo estremece, os olhos descerram e os lábios tremem.

Toda ela é sacudida pelo turbilhão da vida

pelo desejo de absorver todos os cheiros

e os sons que a rodeiam.

Busca desesperadamente

regressar à redoma que construíu

ao embrião em que se tinha tornado

num contacto osmótico

com a frieza da areia da praia.

Mas é demasiado tarde!

Neste momento retrai-se

porque a areia aquece, os sons estendem-se

e o isolamento desfaz-se.

Levanta-se e caminha.

Ainda continua a ser um ponto no areal

uma pedra rolada nos beijos lambidos

das ondas que morrem e mordem a praia.

Mas a sensualidade felina do espreguiçar

na areia

e o isolamento em si,

como que se quebrou.

Luta consigo mesma

contra a paixão que a quer assolar

e devolver à vida.

Sabe de antemão que vai perder a batalha

que o seu corpo e a sua mente

a vão inundar de vida

e embriagar de emoções.

Deseja-o tanto quanto o repele!

A paixão é dor e sofrimento

mas faz parte de si, do seu eu maior, intrínseco e imutável.

Cede à vida, cede ao desejo, cede à realidade.

No fundo

guarda um segredo que lhe arrebata

o coração.

Ela sabe

que amanhã o areal ainda frio e macio

tão intocado quanto um primeiro amor...

espera por ela.





Margarida Piloto Garcia



domingo, 15 de fevereiro de 2009

Teias da vida




Não me posso chegar à tua beira
sem que me estremeças
com as teias com que me teces os cabelos.
Biombos ondulantes
cortinas da vida, ocultam-me.
Não me consigo ver
nos espelhos enlutados
com os panos que os cobrem.
Sinto-me embriagada
em sonhos vividos nas margens de um rio.
Tudo o que posso dar
são mãos estendidas em trémulas manhãs.
Como um algoz
chegam visões de uma praia
de águas azuis, quentes e doces,
de um pequeno café fugindo do sol tórrido
de uma limonada refrescante.
Vende-se uma ilha, anuncia o cartaz.
E a mente galopa
num onírico quase psicadélico.
Pergunto-me porque me teces os cabelos
porque os entranças de mágoas
geradas em tardes deslumbrantes.
Quero chegar-me à tua beira
mas o frio tolhe-me e a escuridão cerca-me
porque faz tempo que partimos.


Margarida Piloto Garcia

Imagem de Sylwia Makris



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Porquê?





A minha lágrima escorre nessa tua pestana.
Escondo novamente o meu olhar,
só porque me detenho nuns lábios de que sei o gosto.
Deslizo num slide inebriante pela risca da tua camisa.
Reconheço o padrão,
sinto-lhe a textura sem sequer lhe tocar.
As minhas mãos brincam um perigoso jogo...
Porque receio tocar-te.

Mas sinto no beijo quebrado do teu adeus, que nunca voltarás.

Não sei como entender-me.
Nem porque teimo em estropiar-me.
Queria mesmo era não sentir essa garra...
Inevitável!

Repetes o discurso intermitente,
da culpa sem desculpa.
Já não o quero ouvir porque o gravei há muito,
na minha pele
na minha alma
na ferida que teima em não sarar.

Mantenho a compostura ,
quando o meu olhar se detém nas tuas ancas.
Procuro a aterradora memória em mim gravada.
Não quero recordar tudo o que não esqueci.
Nego a evidência, vezes sem conta.

Tenho medo que a vida me demonstre,
o grito que voraz me começou a devorar.

Tento fugir a tanto não que tu proferes.
Fujo rua abaixo, morta por dentro.

Não ouso olhar para trás quando te afastas.


Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Poema-paixão






Hoje o leito era uma cela.
Tapei a cabeça, raciocinei, e sabia...
Sabia que precisava de alma espraiada mar fora
sem desertos depressivos, sem cobardias disfarçadas.
Consegui-o olhando-me nos olhos.
Li neles que não tenho esse direito
de desistir de mim
de me perder.
A lágrima que escorregou, já a lambi
e mesmo sem te ter provado, sabe-me a ti.
Tens de saber a terra, a mar, a especiarias.
O teu corpo há-de ter o gosto almiscarado
de tudo o que é raro e exótico.

Não me importa se assim não for.

Tu és a minha flor de sal.

Quero desenhar com a boca a tua tatuagem
quero conhecer o teu íntimo mais recôndito.

Esperei-te toda a vida.


Continuo a esperar-te...




Margarida Piloto Garcia



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dilema





Bom, assumamos, não há como negar. Não cabemos ambos no mesmo papel. Traças esquadrias tão exactas, que necessito ousar para transgredir e nem tentas acreditar num futuro mais-que-perfeito. O imperativo domina a tua vida e desliza numa subreptícia carícia para o meu.
Não sei vestir essa farda de combatente por uma felicidade básica e linear.Talvez num quase autista comportamento, quero dizer quem sou, negando-o.
Difícil compreender como uma folha de papel se mantém branca como uma barreira intransponível.
Vejo por detrás os vultos do imaginário porque a realidade é apenas ficção, traços abstractos num labirinto sem saída.
Será pecado acreditar? Então eu confesso a pura essência desse mal em mim.Consome-me eu sei, disseca-me todos os dias.Sinto-me autopsiada pela vida, numa mesa de aço estéril.

Rasguei as últimas páginas de vida emudecida.Mas os meus gestos são espirais num disco de vinil, ranhuras porque me movo quando julgo saber tudo aquilo de que preciso.Oiço-te, numa voz gravada em mim e imagino-te.Mas somo os dias pelos dedos de uma só mão e mais uma vez abro a Caixa de Pandora.
Essa visão elitista e hedonista do sei quem sou, confunde-me.Há palavras que me rolam na boca como um duro rebuçado.Desenrolei esse papel brilhante e barulhento do doce anónimo, mas não descubro segredos e sabores.
A folha de papel ainda é branca e escorrega nas minhas mãos.Penso nos esboços que desejo desenhar mas, cerebralmente, são equações que surgem.Por detrás dos olhos estendem-se cruzes pueris de um qualquer jogo do galo.Mas são origamis de papel virgem e branco que consigo construir.
Dizes sim, digo não.Afirmo, tu negas.Recuas e avanças numa coreografia que não entendo.A vida torna-se uma cacofonia sem o menor sentido, uma Torre de Babel onde me perco.

Esqueci os sonhos da noite passada para assumir no dia de hoje, a incompreensão e a ruptura.
Por muitas voltas que dê, não sei mesmo como cabermos ambos no mesmo papel.


Margarida Piloto Garcia